Scotch
, o rasgado úmido no meio de suas pernas foi a primeira coisa que me chamou a atenção, depois observei a curva de seus seios mal iluminados. escondiam-se ambos por de baixo de um blusa branca, a boceta deve ser linda, pensei, colocaram miles davis para tocar & ele começou a soprar seu trompete, ela sorriu,
cool jazz, disse, ela gostara,
ofereci-lhe um scotch, duplo, pediu, sem gelo, espantei-me com seu voraz apetite etílico, apanhei a garrafa & despejei o líquido brilhante no copo, no meu, coloquei gelo, frio, fiquei observando seus olhos por entre o uísque no copo, tomei um gole, mais seco que um romancista americano, pensei
não há nada mais belo que um copo de scotch, ela disse por entre um solo de miles davis
tive de concordar com a cabeça
a noite começara bem
, as luzes se enfraqueciam diante da fumaça que as bocas sopravam de outras mesas, passei a percorrer com meus olhos, em silêncio, seus traços, realmente, era,
ela gostava,
continuei, ela, como se não me visse, engolia sua bebida sem fazer careta, seria capaz de amá-la só por isso, disfarçava ela meus olhares como se fosse aquele meu papel & dissimulava meus ataques & sorria de canto & balançava o corpo no ritmo da música, contida,
em quê ‘tá pensando, inquiri
nada, ela não respondeu & depois respondeu, em como as pessoas são estúpidas, todas procuram sempre um amor, até mesmo você, durão e mulherengo, deixou que os dentes brancos aparecessem em um sorriso proposital, ela continuou,
sabe, eu também poderia procurar entre tanta gente um amor, mas acontece que não sei se quero, melhor, não sei se posso, eu tenho um segredo,
segredo, perguntei,
, sim,
fiz cara de indagação
eu tenho um muito íntimo segredo, ela disse com voz baixa, quase encoberta pela agora improvisação diabólica de davis, que eu vou te contar agora,
quase eu fiz que, não, com as mãos, para manter climazinho cool da conquista, mas a curiosidade de saber o que ela escondia não me permitiu, era como se ela quisesse me mostrar o seio esquerdo ou pedisse que chupasse sua boceta & eu me negasse: aquele gesto era coisa impossível, olhei seus seios salientes na fina blusa & olhei seus lábios sugando o cigarro
me conta, fiz
será, ela colocou em dúvida,
ela sabe como fazer as coisas, pensei,
a música oferecia um enorme clima sexual à cena, ela bebendo feito desenfreada e eu ali, esperando ela me dizer um segredo que, eu sabia, ela logo iria revelar, o garçom aproximou-se da mesa e indagou se queríamos alguma coisa: fogo, ela disse sensual & sorriu, enquanto o homem de terno branco acendia seu novo cigarro,
, & eu sempre em silêncio, charmoso, esperando-a,
você me acha linda, não é, ela disse, de pronto,
na humildade descarada que me é minha, tive de elogiar sua beleza, falar de seus olhos, inspirar seu perfume, meditar a geometria perfeita de seu desenho, quase lhe jurei amor eterno, se me fosse solicitado,
, você me inspira ao gozo, terminei,
ela se riu abrindo bem a boca, quase escandalosa, de meu elogio cafajeste & agradeceu com um
obrigado, dito com um murmúrio da cabeça, acenando,
& antes que eu dissesse mais alguma coisa, ela me interrompeu novamente,
, mas acontece, querido, que eu não presto: sou suja, este é meu segredo, não posso amar, não sou nada que se possa confiar, moralmente, eu não cheiro bem
eu não deixaria nunca de acreditar, meu amor, pensei engolindo mais um gole de meu uísque, acendi um havano e fiquei esperando que ela continuasse a confissão, que justificasse o dito,
agora quem tocava era coltrane – a love supreme, reconheci,
ela, no entanto, permaneceu em silêncio, os casais faziam-se finas carícias, garçons circulavam com garrafas de scotch, pequenos marginais ofereciam seus artefatos & prostitutas tentavam disfarçar seus verdadeiros desejos. isso aqui é um pequeno inferno, pensei, onde viemos parar, adoro, ela olhava para o movimento
acontece que não prestar, eu disse, tentando ser cordial, ela virou-se para me ouvir, não chega a ser um desvio de caráter tão grande, afinal, quem tem alguma moral, indaguei, continuando, em nosso mundo é preciso não se prender à regras, é preciso sobreviver,
, naturalmente, ela vagueou
, ser mau caráter é uma condição, não é uma escolha, & amor, quem precisa dele, perguntei,
nós precisamos, baibe, todos precisam de amor, até cretinos como nós sentimos necessidade de amor, creio até que somos o que somos porque o amor nunca foi
, parou um pouco, pausa,
generoso conosco, o amor nos esqueceu, ela divagou,
você sabe demais, minha querida, eu disse, ambíguo
, ela riu, demonstrando que entendera o recado
o que sei, minha opinião, não importa tanto em um caso complexo como esse, sou pessoa sem expressividade, já disse, eu não presto, você não pode confiar no que eu digo, eu não sei muita coisa sobre essas coisas de,
, pausa nova,
, amor,
, oh
, ã, ela soltou,
não é de amor que viemos tratar, cretinos não amam, mudei o tom
mas, ah, pense bem, amor é um tema tão interessante, não é porque não conseguimos amar que não podemos dizer tratados de bobagens sobre o amor, o mundo seria melhor se as pessoas falassem mais de amor, se transassem mais amor, riu, transar, riu novamente, que gíria antiga, ninguém fala mais isso hoje em dia, & se riu gostosamente sozinha outra vez de si, hoje em dia as pessoas fodem,
, você está bêbada, eu disse, divertido
, & isso não é ótimo, ela perguntou espantada
escorri em nossos copos mais do scotch, que agora tomávamos, eu tomava puro, triplo, transbordando, & ela acompanhando,
pedi outra garrafa e as pessoas que perceberam se espantaram em como havíamos enxugado tão rápido o litro,
é a sede, eu disse, erguendo o copo, para um cara que não parava de olhar minha garota,
quê, ela disse
, nada
a outra garrafa veio, tirei o lacre e terminei de completar os copos, eu mesmo estava ficando bêbado, & tanto eu fizera para impressiona-la e ganhar de vez sua confiança que acabei me esquecendo, quase que de propósito, já envolvido com ela, do que tinha ido fazer lá
ela estava animada, balançava-se conforme a canção
, quer cocaína, perguntei
ela, olhos com olhar lascivo, como se eu tivesse falado as palavras mágicas para seus ouvidos, perguntou
você tem aí,
, calma
acenei a mão para um mínimo marginal que eu conhecia de outras histórias e que me devia favores, ele me olhou e perguntou o que era, levantando a cabeça, fiz o sinal: 2, com os dedos, ele, que me conhecia, entendeu, fez retribuiu o sinal para que eu esperasse e desapareceu. enquanto isso, bebemos & falamos das naturezas benéficas do amor e da cocaína,
, qual dos dois é melhor, perguntei
, scotch, ela secando seu copo, respondeu,
ela pensa rápido
o cretino voltou ao salão e se aproximou da mesa, entregou-me o pequeno pacote,
‘tá aí, disse,
, agora você entrega em casa, é, perguntei debochando dele, que estava em minhas mãos
ele riu contrariado,
quanto é, perguntei colocando a mão na carteira,
, que é isso, ele disse mal-humorado, saindo, amigos não pagam,
cretino, eu disse quando se afastou
quer cheirar agora,
lógico, estende aí do seu lado, eu sempre me atrapalho com essas coisas, pediu ela
não deve ter mais que vinte anos, olhei para ela sorrindo
, é uma perda
, pegou um pequeno espelho que carregava na bolsa e me deu, coloquei-o sobre a mesa e, com um cartão, sem os pudores dos vizinhos, que iam cheirar no banheiro, formei duas belas carreiras paralelas, a cocaína brilhava e os olhos da garota luziam como que refletindo a droga,
, cheirei primeiro e pensei, limpando o nariz, que aquilo era prazer, ofereci o espelho com sua carreia mas ela disse
, calma, vou até ai cheirar
& levantou-se
, veio em minha direção &, quando virou-se para cheirar do meu lado, esbarrou a coxa em minha perna, senti seu calor, ela cheirou, soltando uma sonora risada, & antes de voltar a seu lugar, passou a mão em meu rosto e meteu a língua em minha orelha, lambendo-a todo, terminando com um estralado beijo, que zumbiu em minha cabeça durante algum tempo
, arrepiei-me todo, feito menino
ela estava animada & desenvolta, quase dançava sentada na cadeira & bebia seu uísque com vontade, o copo parecia cada vez maior, ela tinha dificuldades de pegá-lo & ele parecia tapar seu rosto, mas eram só seus gestos que tomavam outra forma, ou seria minha percepção
, você é adorável, ela disse
tenho de reconhecer,
ela riu e decidiu dançar, disse que não queria, & mais: eu não sabia
, quero dançar, choramingou, criança ainda
vai, 'tá cheio de homem por aí,
ela foi, eu fui ao banheiro
quando olhei, sentando de volta na mesa, ela estava rodopiando no meio do salão com o cara que não tirava os olhos de cima dela,
devo confessar que senti ciúmes,
quando retornou, estava suada, cabelos negros grudando na pele, feito mulher cansada desabou na cadeira, em vez de pedir água, tomou uma golada de uísque, eu estava feliz por tê-la ali, minha
quase
tire a roupa,
, acabamos a noite trepando em quarto barato de hotel & com ela chupando pela primeira vez o meu pau, depois de vários encontros secretos, qualquer homem, eu incluso, poderia se apaixonar por aqueles lábios, por aqueles seios, & tive de concordar com meu presságio, a boceta era mesmo linda,
quando gozou, juro que ela gritou, nós não prestamos, baibe
realmente,
pela manhã, vendo-a dormir nua na cama, pensei, bela recompensa pelo meu trabalho cretino, revirei sua bolsa & tive certeza de quem ela era, o gosto em minha boca era horrível, a ressaca maior, roubei um remédio para dor de cabeça em sua bolsa antes de sair e antes de que alguém entrasse para terminar o trabalho, levando-a, conferi os documentos enquanto engolia o comprimido, era mesmo ela
vista-se, pelo menos eu queria ter dito,
, mas eu não disse,
samba pra burro
17 Novembro 2009
11 Novembro 2009
Exílio
“Não quero mais ser o rei de Ítaca. Vou me exilar. Da terra natal, Trica, apenas o jamais. Negar a própria terra é como assim assassinar a própria mãe. A minha, matei a punhaladas. Mas mesmo que exigissem, eu não me ajoelharia. Ó, eu não me ajoelharia nem mesmo em seu leito moribundo. A esta terra que dizem rica eu não retorno nunca mais.”
Acho que foram estas as primeiras palavras que dele traduzi. Era um conto. Um herói de guerra que, feito outro, outros, foi levado para longe do lar: lutar pela flâmula: uma crença. Ao contrário do mito, a personagem não era herói e lutou sem destaque, quase sem lutar. Ao contrário do que cito, retornar não era o que queria. Vagou pelas terras inimigas. A dificuldade de tradução do texto se esbarrou em empecilhos de diferentes naturezas, porém, barreira maior que a da língua e foi a da sucessão de exílios. Os da personagem; os do autor; os meus.
Não que ele não fosse um bom tradutor, mas acontece que é fácil se perder na tradução. Depois de aulas de uma complicada língua, meteu-se a ler, e ousar traduzir, a maior expressão literária de um país ao leste. Contudo, e já se sabia, que, na verdade, o idioma que ele traduzia não era a língua materna de Vito (mas este não era seu nome verdadeiro). Algo semelhante ao que aconteceu com o irlandês Samuel Beckett, que deixou de lado o inglês da usurpadora Inglaterra para escrever “Malone morre” em francês. No caso do tradutor a que nos referimos, a complicação atingia a maioridade porque Vito se exilara de escrever na língua materna para escrever em uma língua complicada para ele: o idioma do rival país vizinho.
A história de Vito é marcada pelas fugas voluntárias ou ausências forçadas. Por isso penso que o conto que traduzo – não encontrei ainda uma chave para o complicado jogo de palavras do título – é autobiográfico. A personagem é forçada a ir à guerra para lutar por uma causa em que não acredita ou, ainda pior, que desconhece. A guerra é contra o país vizinho, cujo idioma é um corpo estranho à personagem e ao autor ; nesta terra estranha fica o campo de batalhas. Com o fim da guerra, a personagem expressa, no conto, seu desejo de não retornar ao país que o sujeitou aos traumas de ver horrores e ter de suportá-los. O exílio escolhido é justamente no país em que muitos homens matou. Assim traduzi este trecho, trazendo a confusão e a ira da personagem para a linguagem, inclusive seus erros:
“Ó, sim, era ódio o que eu sentia por aquela Terra; porque terra do inimigo me fizeram eu comer sem eu querer. Eu não sei que eu não talvez tenha sido um bom do lugar, mas voltar agora, depois do fim do fogo, me pegarem feito herói da pátria para propaganda de político rouco? Isso eu não fazia. Nos mandaram à batalha como os meninos da pátria. O presidente discursava dizendo que era preciso salvar o mundo do mau. O que eu vi foi gente ser morrida, meninos ainda, pela bala chumbo inimigo que vem do lado de lá; o meu agora.”
O tradutor cometeu equívocos justamente nos jogos de palavras , caros ao autor que traduzia. Ele, às vezes, leva o texto muito ao pé da letra em alguns pontos e em outros se permite a criações que, se não tiram o sentido do texto original, amputa-lhe toda a graça e invenção. Um exemplo é a utilização da primeira pessoa do pronome pessoal. Na gramática do idioma que traduz, a utilização do “eu” é necessária; não é recurso estilístico, como pensou o tradutor. Em português a infinidade do pronome “eu” utilizada acaba por truncar a fluência do texto, o que não ocorre no original. Quando se refere ao presidente do país, o autor, em grande parte das vezes, chama-o de líder, no lugar de presidente. O tradutor não o faz na tradução; em todas, é a palavra presidente que aparece. Não percebe as nuances que o autor imprime ao chamar o presidente de líder, dando à palavra um sentido que revela, sutilmente, atitudes que beiram o fascismo do religioso e conservador ditador (que existiu na realidade).
“O que eu precisava era negar. Negar tudo o que havia dentro de mim. Em mim, dizer não a tudo o que era de fora, tudo o que era conhecido. O que eu queria era o alheio, o do outro: roubar a propriedade que já o é. Eu queria falar e não ser entendido e escutar sons impronunciáveis e desconhecer o entendimento. Ó, deflorar mulher nua, criança, arrancar os clitóris com os dentes e massagea-los desprendidos do corpo só para ver urros e gritos de prazer: murros aflitos do gemer de dor. Desenterrar minha finada mãe, velha enrugada, só para matá-la outra vez, mas dessa vez dizendo palavras de amor. Eu queria ser parricida, pecador da lama e pescador de almas: levar a minha direto ao inferno em que eu já estava. Eu queria dizer essas palavras que eu não tinha coragem, negar o Deus em todas minhas crenças, duvidar só para sentir o gosto da ferida sem casca, beber o desgosto da ressaca, destruir meu rosto à faca. Fazer coisas que eu não entendia e que, principalmente, não queria: ser do contra só para ir de encontro: em algum ponto colidir com tudo o que era negado, como se uma enxurrada suja passasse sobre mim.”
Dia incerto, a personagem vaga pela terra na qual se exilou. No primeiro dia observa os prédios, escombros sem iluminação, que abrigam pessoas de caminhos tão sem vida. A essas pessoas, gente em que ele mesmo se enxerga, o que resta é bem pouco ou quase nada. De repente, ele se vê vagando em uma estrada perdida. É inverno, um incomum inverno rígido. As pessoas sem, encolhem-se entre ruínas na tentativa de fugir do vento gélido. Não há beleza, crianças choram, mulheres sentem tristeza, homens dissabor. O que todos sentem é a impossibilidade. Os cidadãos, a impossibilidade de reconstrução dos prédios públicos, de plantações perdidas, poses, posses, paixões; a personagem confronta-se com a impossibilidade da língua. Não pode nem mendigar, pois não sabe pedir (nem em sua língua, nem em outra) e seus olhos são pouco expressivos. Além do quê, não haveria comida para ele. Por muito tempo, a alvorada não aparecia por ali.
Uns defendem a transcriação como uma saída para o problema da tradução. Obviamente, é uma saída justa, porém a ele faltava criatividade. Tu é um que erra a concordância dos verbos no momento de suas traduções. É o homem que se perdeu no meio do caminho de palavras desconhecidas e pensaste que apenas um dicionário bastava. No entanto, és necessário muito mais que uma ponte para cruzar de um ponto ao outro. Tu está aqui, chega do outro lado, faz a travessia, mas é como se não estivesse lá. Algo se perdeu no caminho. Esta palavra não corresponde àquela: esta terra não corresponde àquela. Existem dois lugares e duas palavras, você é um. Tu está em um lugar e atravessa para outro e tens uma palavra na goela e traduz para outra. Aquela terra já não quer dizer coisa alguma e a palavra traduzida não quer significar seu sentimento em relação a isso. O que se perdeu no transporte tu não sabe. A cada passo, letra, há uma perda. Nessa travessia, uma cebola vai sendo descascada e, singelamente, suas pétalas brancas vão, uma a uma, sendo tiradas inteiras. Você chora, mas sem afligir , porque é uma cebola que estás descascando e porque sabe que o sofrimento é vão. No final, sem pétala alguma, resta você, nu. Nesse despir, não é uma terra nem outra, é uma palavra e outra, mas sem significados correspondentes ao você. Tu se tornou um balão azul flutuando no céu azul. Nem transar nem criar tu consegue, quanto dirá transcriar. Era isso que eu dizia a ele se um dia eu o encontrasse, a respeito do emprego dos tempos verbais.
"Reflito eu, agora, as andanças do meu eu aflito. Era um infinito agito secreto que eu tinha dentro de mim. Eu me movia: os átomos, as células, os sentires. O que eu fiz foi cortar o cordão umbilical. Não ter ligação nenhuma, onde nada me prende a nada. Eu não recebia mais o alimento materno nem afeto. Eu me sentia leve por estar perdido, sem buscar mais nada, a não ser o desencontro. Eu estava perdido em um mundo em que as pessoas não se identificavam comigo. Eu era privado de entendê-las e de me fazer entendido. Eu não tinha mais nenhum vínculo. Por não conseguir falar e ser entendido, eu estava livre do empecilho da língua; sem a barreira da comunicação. Sem comunicação alguma. Eu estava livre do início, da criação primordial: tinha me livrado do verbo, a única ligação que existe com o outro. Só no ostracismo da língua, muito mais que no da terra, um homem sabe o que é dor e somente com o peito contraído em sofrimento dolorido ele encontra a redenção: o não-ser, o estar e ser livre para a morte.”
Encontrei sérias dificuldades para traduzir certos trechos do conto. Não por esbarrar na questão da gramática complicada do idioma estrangeiro no qual ele escrevia. O problema foi esbarrar nas emoções de mim mesmo despertas pelas palavras dele. Eu mesmo me sentia exilado, alheio ao meu orgulho anterior. A cada momento em que ia buscando correspondentes de sua língua em minha língua, eu notava que lágrimas caíam no chão, perdendo-se, e que, ao final, eu necessitaria delas para um choro que refletiria, na tradução, o original, mas que essas lágrimas faltariam para formar um mar em que se possa navegar. Pior que fazer um oceano das próprias lágrimas, é não consegui-lo e assim não poder sair da ilha na qual se encontra isolado de todo o resto. Durante a tradução, eu perdera todo aquele meu orgulho de falar e ler em línguas estrangeiras. Realmente aquilo não significava nada, pois ao mesmo tempo em que eu sentia e era como aquela personagem que, para mim, era Vito, elas, as palavras, eu não conseguia expressar em minha própria língua, nem na dele. Era algo que transcendia às palavras e que extrapolava o significado. Era o mesmo para nós, aquilo que não tinha nome.
“Não quero mais ser o rei de Ítaca. Vou me exilar. Da terra natal, Trica, apenas o jamais. Negar a própria terra é como assim assassinar a própria mãe. A minha, matei a punhaladas. Mas mesmo que exigissem, eu não me ajoelharia. Ó, eu não me ajoelharia nem mesmo em seu leito moribundo. A esta terra que dizem rica eu não retorno nunca mais.”
Acho que foram estas as primeiras palavras que dele traduzi. Era um conto. Um herói de guerra que, feito outro, outros, foi levado para longe do lar: lutar pela flâmula: uma crença. Ao contrário do mito, a personagem não era herói e lutou sem destaque, quase sem lutar. Ao contrário do que cito, retornar não era o que queria. Vagou pelas terras inimigas. A dificuldade de tradução do texto se esbarrou em empecilhos de diferentes naturezas, porém, barreira maior que a da língua e foi a da sucessão de exílios. Os da personagem; os do autor; os meus.
Não que ele não fosse um bom tradutor, mas acontece que é fácil se perder na tradução. Depois de aulas de uma complicada língua, meteu-se a ler, e ousar traduzir, a maior expressão literária de um país ao leste. Contudo, e já se sabia, que, na verdade, o idioma que ele traduzia não era a língua materna de Vito (mas este não era seu nome verdadeiro). Algo semelhante ao que aconteceu com o irlandês Samuel Beckett, que deixou de lado o inglês da usurpadora Inglaterra para escrever “Malone morre” em francês. No caso do tradutor a que nos referimos, a complicação atingia a maioridade porque Vito se exilara de escrever na língua materna para escrever em uma língua complicada para ele: o idioma do rival país vizinho.
A história de Vito é marcada pelas fugas voluntárias ou ausências forçadas. Por isso penso que o conto que traduzo – não encontrei ainda uma chave para o complicado jogo de palavras do título – é autobiográfico. A personagem é forçada a ir à guerra para lutar por uma causa em que não acredita ou, ainda pior, que desconhece. A guerra é contra o país vizinho, cujo idioma é um corpo estranho à personagem e ao autor ; nesta terra estranha fica o campo de batalhas. Com o fim da guerra, a personagem expressa, no conto, seu desejo de não retornar ao país que o sujeitou aos traumas de ver horrores e ter de suportá-los. O exílio escolhido é justamente no país em que muitos homens matou. Assim traduzi este trecho, trazendo a confusão e a ira da personagem para a linguagem, inclusive seus erros:
“Ó, sim, era ódio o que eu sentia por aquela Terra; porque terra do inimigo me fizeram eu comer sem eu querer. Eu não sei que eu não talvez tenha sido um bom do lugar, mas voltar agora, depois do fim do fogo, me pegarem feito herói da pátria para propaganda de político rouco? Isso eu não fazia. Nos mandaram à batalha como os meninos da pátria. O presidente discursava dizendo que era preciso salvar o mundo do mau. O que eu vi foi gente ser morrida, meninos ainda, pela bala chumbo inimigo que vem do lado de lá; o meu agora.”
O tradutor cometeu equívocos justamente nos jogos de palavras , caros ao autor que traduzia. Ele, às vezes, leva o texto muito ao pé da letra em alguns pontos e em outros se permite a criações que, se não tiram o sentido do texto original, amputa-lhe toda a graça e invenção. Um exemplo é a utilização da primeira pessoa do pronome pessoal. Na gramática do idioma que traduz, a utilização do “eu” é necessária; não é recurso estilístico, como pensou o tradutor. Em português a infinidade do pronome “eu” utilizada acaba por truncar a fluência do texto, o que não ocorre no original. Quando se refere ao presidente do país, o autor, em grande parte das vezes, chama-o de líder, no lugar de presidente. O tradutor não o faz na tradução; em todas, é a palavra presidente que aparece. Não percebe as nuances que o autor imprime ao chamar o presidente de líder, dando à palavra um sentido que revela, sutilmente, atitudes que beiram o fascismo do religioso e conservador ditador (que existiu na realidade).
“O que eu precisava era negar. Negar tudo o que havia dentro de mim. Em mim, dizer não a tudo o que era de fora, tudo o que era conhecido. O que eu queria era o alheio, o do outro: roubar a propriedade que já o é. Eu queria falar e não ser entendido e escutar sons impronunciáveis e desconhecer o entendimento. Ó, deflorar mulher nua, criança, arrancar os clitóris com os dentes e massagea-los desprendidos do corpo só para ver urros e gritos de prazer: murros aflitos do gemer de dor. Desenterrar minha finada mãe, velha enrugada, só para matá-la outra vez, mas dessa vez dizendo palavras de amor. Eu queria ser parricida, pecador da lama e pescador de almas: levar a minha direto ao inferno em que eu já estava. Eu queria dizer essas palavras que eu não tinha coragem, negar o Deus em todas minhas crenças, duvidar só para sentir o gosto da ferida sem casca, beber o desgosto da ressaca, destruir meu rosto à faca. Fazer coisas que eu não entendia e que, principalmente, não queria: ser do contra só para ir de encontro: em algum ponto colidir com tudo o que era negado, como se uma enxurrada suja passasse sobre mim.”
Dia incerto, a personagem vaga pela terra na qual se exilou. No primeiro dia observa os prédios, escombros sem iluminação, que abrigam pessoas de caminhos tão sem vida. A essas pessoas, gente em que ele mesmo se enxerga, o que resta é bem pouco ou quase nada. De repente, ele se vê vagando em uma estrada perdida. É inverno, um incomum inverno rígido. As pessoas sem, encolhem-se entre ruínas na tentativa de fugir do vento gélido. Não há beleza, crianças choram, mulheres sentem tristeza, homens dissabor. O que todos sentem é a impossibilidade. Os cidadãos, a impossibilidade de reconstrução dos prédios públicos, de plantações perdidas, poses, posses, paixões; a personagem confronta-se com a impossibilidade da língua. Não pode nem mendigar, pois não sabe pedir (nem em sua língua, nem em outra) e seus olhos são pouco expressivos. Além do quê, não haveria comida para ele. Por muito tempo, a alvorada não aparecia por ali.
Uns defendem a transcriação como uma saída para o problema da tradução. Obviamente, é uma saída justa, porém a ele faltava criatividade. Tu é um que erra a concordância dos verbos no momento de suas traduções. É o homem que se perdeu no meio do caminho de palavras desconhecidas e pensaste que apenas um dicionário bastava. No entanto, és necessário muito mais que uma ponte para cruzar de um ponto ao outro. Tu está aqui, chega do outro lado, faz a travessia, mas é como se não estivesse lá. Algo se perdeu no caminho. Esta palavra não corresponde àquela: esta terra não corresponde àquela. Existem dois lugares e duas palavras, você é um. Tu está em um lugar e atravessa para outro e tens uma palavra na goela e traduz para outra. Aquela terra já não quer dizer coisa alguma e a palavra traduzida não quer significar seu sentimento em relação a isso. O que se perdeu no transporte tu não sabe. A cada passo, letra, há uma perda. Nessa travessia, uma cebola vai sendo descascada e, singelamente, suas pétalas brancas vão, uma a uma, sendo tiradas inteiras. Você chora, mas sem afligir , porque é uma cebola que estás descascando e porque sabe que o sofrimento é vão. No final, sem pétala alguma, resta você, nu. Nesse despir, não é uma terra nem outra, é uma palavra e outra, mas sem significados correspondentes ao você. Tu se tornou um balão azul flutuando no céu azul. Nem transar nem criar tu consegue, quanto dirá transcriar. Era isso que eu dizia a ele se um dia eu o encontrasse, a respeito do emprego dos tempos verbais.
"Reflito eu, agora, as andanças do meu eu aflito. Era um infinito agito secreto que eu tinha dentro de mim. Eu me movia: os átomos, as células, os sentires. O que eu fiz foi cortar o cordão umbilical. Não ter ligação nenhuma, onde nada me prende a nada. Eu não recebia mais o alimento materno nem afeto. Eu me sentia leve por estar perdido, sem buscar mais nada, a não ser o desencontro. Eu estava perdido em um mundo em que as pessoas não se identificavam comigo. Eu era privado de entendê-las e de me fazer entendido. Eu não tinha mais nenhum vínculo. Por não conseguir falar e ser entendido, eu estava livre do empecilho da língua; sem a barreira da comunicação. Sem comunicação alguma. Eu estava livre do início, da criação primordial: tinha me livrado do verbo, a única ligação que existe com o outro. Só no ostracismo da língua, muito mais que no da terra, um homem sabe o que é dor e somente com o peito contraído em sofrimento dolorido ele encontra a redenção: o não-ser, o estar e ser livre para a morte.”
Encontrei sérias dificuldades para traduzir certos trechos do conto. Não por esbarrar na questão da gramática complicada do idioma estrangeiro no qual ele escrevia. O problema foi esbarrar nas emoções de mim mesmo despertas pelas palavras dele. Eu mesmo me sentia exilado, alheio ao meu orgulho anterior. A cada momento em que ia buscando correspondentes de sua língua em minha língua, eu notava que lágrimas caíam no chão, perdendo-se, e que, ao final, eu necessitaria delas para um choro que refletiria, na tradução, o original, mas que essas lágrimas faltariam para formar um mar em que se possa navegar. Pior que fazer um oceano das próprias lágrimas, é não consegui-lo e assim não poder sair da ilha na qual se encontra isolado de todo o resto. Durante a tradução, eu perdera todo aquele meu orgulho de falar e ler em línguas estrangeiras. Realmente aquilo não significava nada, pois ao mesmo tempo em que eu sentia e era como aquela personagem que, para mim, era Vito, elas, as palavras, eu não conseguia expressar em minha própria língua, nem na dele. Era algo que transcendia às palavras e que extrapolava o significado. Era o mesmo para nós, aquilo que não tinha nome.
08 Novembro 2009
"As cidades, como os sonhos, são construídos por desejos e medos, ainda que o fio condutor de seu discurso seja secreto, que as suas regras sejam absurdas, suas perspectivas enganosas, e que todas coisas escondam uma outra coisa.
(...)
- As cidades também acreditam ser obra da mente e do acaso, mas nem um nem outro bastam para sustentar as suas muralhas. De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas as respostas que dá às nossas perguntas".
Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, pág 46
(...)
- As cidades também acreditam ser obra da mente e do acaso, mas nem um nem outro bastam para sustentar as suas muralhas. De uma cidade, não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas as respostas que dá às nossas perguntas".
Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, pág 46
"Todos os escribas irão morrer, mas
o tempo conservará o que suas mãos traçaram;
não escrevas com tua letra, portanto, nada
que no Juízo Final não te traga alegrias"
Livro das Mil e Uma Noites (Volume 1, ramo sírio), pág 155
"Dois exércitos se combatem o dia inteiro,
mas sua luta, em qualquer hora, é descabida,
pois quando a noite se abate sobre eles,
dormem ambos juntos no mesmo leito"
Livro das Mil e Uma Noites (Volume 1, ramo sírio), pág. 157
"Estou perplexo, Deus! Ninguém duvida:
por todo lado, desgraças me abalam a vida.
Serei paciente até que a paciência se canse da minha paciência;
serei paciente até que Deus decida o meu caso em sua clemência;
serei paciente com coisas mais amargas do que a paciência que me deu;
todas as paciências não foram pacientes com a minha paciência, embora
eu tenha sido paciente com todas as paciências desde que a minha foi traidora;
tampouco os decretos todos se ocuparam de meu destino,
mas eu recebi ordens de todos os decretos desde que o destino me envileceu;
quem pensar que a vida é feita de doçura e benevolência
deveria viver um dia mais amargo que a paciência"
Livro das Mil e Uma Noites (Volume 1, ramo sírio), pág. 163
"Sou a casa da alegria -
sempre.
Que tens com minha satisfação?
Em meu centro há uma fonte
cuja água a tristeza faz secar.
Há também, para cheirar -
quatro:
murta, margarida, rosa e cravo"
Livro das Mil e Uma Noites (Volume 1, ramo sírio), pág. 197
"Mudez é adorno e silêncio é segurança;
se acaso falares, não sejas linguarudo, pois,
ainda que alguma vez te arrependas da tua mudez,
de teres falado sempre te arrependerás"
Livro das Mil e Uma Noites (Volume 1, ramo sírio), pág. 223
"O destino não é de constantes certezas:
são necessárias ora alegrias, ora tristezas"
Livro das Mil e Uma Noites (Volume 1, ramo sírio), pág. 266
o tempo conservará o que suas mãos traçaram;
não escrevas com tua letra, portanto, nada
que no Juízo Final não te traga alegrias"
Livro das Mil e Uma Noites (Volume 1, ramo sírio), pág 155
"Dois exércitos se combatem o dia inteiro,
mas sua luta, em qualquer hora, é descabida,
pois quando a noite se abate sobre eles,
dormem ambos juntos no mesmo leito"
Livro das Mil e Uma Noites (Volume 1, ramo sírio), pág. 157
"Estou perplexo, Deus! Ninguém duvida:
por todo lado, desgraças me abalam a vida.
Serei paciente até que a paciência se canse da minha paciência;
serei paciente até que Deus decida o meu caso em sua clemência;
serei paciente com coisas mais amargas do que a paciência que me deu;
todas as paciências não foram pacientes com a minha paciência, embora
eu tenha sido paciente com todas as paciências desde que a minha foi traidora;
tampouco os decretos todos se ocuparam de meu destino,
mas eu recebi ordens de todos os decretos desde que o destino me envileceu;
quem pensar que a vida é feita de doçura e benevolência
deveria viver um dia mais amargo que a paciência"
Livro das Mil e Uma Noites (Volume 1, ramo sírio), pág. 163
"Sou a casa da alegria -
sempre.
Que tens com minha satisfação?
Em meu centro há uma fonte
cuja água a tristeza faz secar.
Há também, para cheirar -
quatro:
murta, margarida, rosa e cravo"
Livro das Mil e Uma Noites (Volume 1, ramo sírio), pág. 197
"Mudez é adorno e silêncio é segurança;
se acaso falares, não sejas linguarudo, pois,
ainda que alguma vez te arrependas da tua mudez,
de teres falado sempre te arrependerás"
Livro das Mil e Uma Noites (Volume 1, ramo sírio), pág. 223
"O destino não é de constantes certezas:
são necessárias ora alegrias, ora tristezas"
Livro das Mil e Uma Noites (Volume 1, ramo sírio), pág. 266
25 Outubro 2009
"enfim,
ele se enamorou de mim
e o deu a entender
pelas janelas de sua casa
com tantos sinais
e com tantas lágrimas,
que tive de crer,
e até benquerer,
sem saber
o bem que me queria"
Miguel de Cervantes Saavedra, O Engenhoso Figaldo D. Quixote de La Mancha, pág. 612-613
ele se enamorou de mim
e o deu a entender
pelas janelas de sua casa
com tantos sinais
e com tantas lágrimas,
que tive de crer,
e até benquerer,
sem saber
o bem que me queria"
Miguel de Cervantes Saavedra, O Engenhoso Figaldo D. Quixote de La Mancha, pág. 612-613
21 Outubro 2009
Borges
Todo poema é retórico.
A existência, anacrônica.
A rima com irônica
não é algo metafórico.
Toda letra é metáfora
Do amor e do espelho,
De um felino ao meio
E do odor da cânfora.
Nestas linhas indignas
Tento a totalidade -
não atinjo, na verdade.
Isso não me resigna.
Todo poema é retórico.
A existência, anacrônica.
A rima com irônica
não é algo metafórico.
Toda letra é metáfora
Do amor e do espelho,
De um felino ao meio
E do odor da cânfora.
Nestas linhas indignas
Tento a totalidade -
não atinjo, na verdade.
Isso não me resigna.
20 Outubro 2009
Conrad, Melville
Não são irmãos meus na essência:
Meus Mares, só das lágrimas derramadas;
Meus Nós, apenas aqueles da existência;
Minhas aventuras, somente as imaginadas.
Enquanto ambos navegaram o mesmo mar
E outras letras, eu só andei na areia.
Somos iguais, porém, em outro navegar:
As trevas dentro do coração de baleia.
Não são irmãos meus na essência:
Meus Mares, só das lágrimas derramadas;
Meus Nós, apenas aqueles da existência;
Minhas aventuras, somente as imaginadas.
Enquanto ambos navegaram o mesmo mar
E outras letras, eu só andei na areia.
Somos iguais, porém, em outro navegar:
As trevas dentro do coração de baleia.
17 Outubro 2009
só meu sangue sorve tua seiva
só meu suor sabe tua seita
só minha sede para o teu sal
seja sã e me aceita.
só meu suor sabe tua seita
só minha sede para o teu sal
seja sã e me aceita.
01 Outubro 2009
eu sou eu sou eu sou
de uma porção de nó
de uma porção de só
de uma porção de pó
de uma porção de dó
e dó e dó e dó e dó
eu sim eu sou só
de uma porção de Ló
de uma porção de Jó
de uma porção de dó
de dó ré mi fá sol
lá sol lá sol lá sol
de uma porção de nó
de uma porção de só
de uma porção de pó
de uma porção de dó
e dó e dó e dó e dó
eu sim eu sou só
de uma porção de Ló
de uma porção de Jó
de uma porção de dó
de dó ré mi fá sol
lá sol lá sol lá sol
29 Setembro 2009
Quixote, Ulisses
Ainda que com todas as coisas inventadas
Só resta aos homens, no meio das pernadas,
Serem sempre e só os mesmos homens.
No meio do mar, sem receio e sem nada,
Ter sua imagem na de Ulisses transformada:
Em busca da amada e do lar, não de bens.
Durante o caminho da vida que lhe sobra
Resta ao homem errar (e esta é sua obra)
Na outra metade, que cabe em um caixote,
É a prestações caras que a vida cobra
Encerrada ali dentro não feito Pandora
E sim como homem livre, feito o Quixote.
Os olhos cansados, entre todas coisas surgidas,
Enxergam que todo homem é igual nesta vida:
Viver é sempre voltar, como o herói de Homero,
E encontrar vitória, seja na batalha perdida,
Ou procurar alento, ainda que na morte morrida,
E antes ser bravo, mesmo que sem esmero.
Ser, no entanto, não é feito de simples regra:
Há uma diária entrega à vida, que se nega;
E uma dor na carne, arte que se emoldura
E que sangra, e arde, e aos olhos cega
Feito aquela que na cruz todo dia se prega.
Ainda assim, todo homem é uma Triste Figura.
Desatento, mesmo que todo homem não veja
Que cada passo do caminho à Mancha seja
A mesma estrada o leva também a Ítaca
Não importa se se arrasta ou se veleja
Este homem, chegará a hora que anteveja
Que a viagem interminável é também mítica.
Pois que a vida é só estrada e nada mais
Com um ponto de partida - nascimento sem paz -
E um invariável final - o enigma da morte.
No meio é o que será e o que veio atrás,
É ser errante e marinheiro com casa e sem cais,
E (e ao contrário) partir Ulisses e chegar Quixote.
Ainda que com todas as coisas inventadas
Só resta aos homens, no meio das pernadas,
Serem sempre e só os mesmos homens.
No meio do mar, sem receio e sem nada,
Ter sua imagem na de Ulisses transformada:
Em busca da amada e do lar, não de bens.
Durante o caminho da vida que lhe sobra
Resta ao homem errar (e esta é sua obra)
Na outra metade, que cabe em um caixote,
É a prestações caras que a vida cobra
Encerrada ali dentro não feito Pandora
E sim como homem livre, feito o Quixote.
Os olhos cansados, entre todas coisas surgidas,
Enxergam que todo homem é igual nesta vida:
Viver é sempre voltar, como o herói de Homero,
E encontrar vitória, seja na batalha perdida,
Ou procurar alento, ainda que na morte morrida,
E antes ser bravo, mesmo que sem esmero.
Ser, no entanto, não é feito de simples regra:
Há uma diária entrega à vida, que se nega;
E uma dor na carne, arte que se emoldura
E que sangra, e arde, e aos olhos cega
Feito aquela que na cruz todo dia se prega.
Ainda assim, todo homem é uma Triste Figura.
Desatento, mesmo que todo homem não veja
Que cada passo do caminho à Mancha seja
A mesma estrada o leva também a Ítaca
Não importa se se arrasta ou se veleja
Este homem, chegará a hora que anteveja
Que a viagem interminável é também mítica.
Pois que a vida é só estrada e nada mais
Com um ponto de partida - nascimento sem paz -
E um invariável final - o enigma da morte.
No meio é o que será e o que veio atrás,
É ser errante e marinheiro com casa e sem cais,
E (e ao contrário) partir Ulisses e chegar Quixote.
28 Setembro 2009
"Um sol alaranjado rola pelo céu como uma cabeça decepada, (...)"
Isaac Bábel, O Exército de Cavalaria, pág. 21
Isaac Bábel, O Exército de Cavalaria, pág. 21
25 Setembro 2009
Ai de mim! que já escrevi que "Esperando Godot" é o mais importante texto escrito no século XX e que "As ruínas circulares" é o texto mais belo já escrito por homem humano; é, porém, este texto que narra as aventuras do Quixote um dos que, realmente, faz-nos acreditar que se realmente viveu: é impossível dizer que se passou pela vida sem ter lido Dom Quixote.
"- Para que vejas, Sancho, o bem que em si encerra a andante cavalaria e quão a pique estão os que em qualquer ministério dela se exercitam de virem logo a ser honrados e estimados pelo mundo, quero que aqui ao meu lado e na companhia desta boa gente te sentes, e que sejas uma mesma coisa comigo, que sou teu amo e natural senhor; que comas de meu prato e bebas donde eu beber, pois da cavalaria andante se pode dizer o mesmo que do amor se diz: que todas as coisas iguala."
Miguel de Cervantes, O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Pág. 147 e 148
"Valha-me Deus! Quantas províncias disse, quantas nações nomeou, dando a cada uma com maravilhosas presteza os atributos que lhe cabiam, todo absorto e embebido no que lera em seus livros mentirosos!"
Miguel de Cervantes, O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Pág. 233
"- Sabe, Sancho, que nenhum homem é mais que outro, se não faz mais que outro. Toda estas borrascas que nos ocorrem são sinais de que logo se há de serenar o tempo e nossas coisas hão de correr bem, porque não se podem o mal nem o bem durar para sempre, e daí se segue que, tendo durado muito o mal, o bem está próximo. Não deves portante aflingir-te pelas desgraças que a mim ocorrem, pois a ti não cabe parte delas."
Miguel de Cervantes, O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Pág. 237 e 238
"- Para que vejas, Sancho, o bem que em si encerra a andante cavalaria e quão a pique estão os que em qualquer ministério dela se exercitam de virem logo a ser honrados e estimados pelo mundo, quero que aqui ao meu lado e na companhia desta boa gente te sentes, e que sejas uma mesma coisa comigo, que sou teu amo e natural senhor; que comas de meu prato e bebas donde eu beber, pois da cavalaria andante se pode dizer o mesmo que do amor se diz: que todas as coisas iguala."
Miguel de Cervantes, O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Pág. 147 e 148
"Valha-me Deus! Quantas províncias disse, quantas nações nomeou, dando a cada uma com maravilhosas presteza os atributos que lhe cabiam, todo absorto e embebido no que lera em seus livros mentirosos!"
Miguel de Cervantes, O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Pág. 233
"- Sabe, Sancho, que nenhum homem é mais que outro, se não faz mais que outro. Toda estas borrascas que nos ocorrem são sinais de que logo se há de serenar o tempo e nossas coisas hão de correr bem, porque não se podem o mal nem o bem durar para sempre, e daí se segue que, tendo durado muito o mal, o bem está próximo. Não deves portante aflingir-te pelas desgraças que a mim ocorrem, pois a ti não cabe parte delas."
Miguel de Cervantes, O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha, Pág. 237 e 238
16 Setembro 2009
Para Ítaca
Foi então que uma vez aconteceu isso, assim. A menina pequena, 8, parou em frente a uma placa do metrô. Mesmo perdida do pai, não se intimidou. Mapa filha da puta – soltou. Ficou olhando os caminhos do mapa que nada diziam. As pessoas passavam, passavam correndo. Caralho, que merda. Não lembro onde é minha casa. Não sei em qual estação parar. Porra, minha mãe fodeu minha vida quando soltou minha mão. Que desgraça.
Para se encontrar, a menina pensou em perguntar para alguém; pedir uma informação. Em qual estação eu tenho que descer para ir para o e disse o nome do bairro. Não sei, não sou daqui, respondeu um moleque grandalhão, meio monstrengo. Mais um burro, seu filho da puta, ela atacou. Só tem filho da puta na porcaria desse mundo, disse alto.
Depois disso, ela decidiu que não ia perguntar mais nada para ninguém. Foda-se, pensou. Foi andando pelo meio das pessoas grandes. Mesmo com 8, era bem mirradinha e pequenina. Ia costurando entre as pernas, trombando em joelhos e empurrando bundas empanturradas. Sai da frente, sua puta. Caralho, não tenho um puto no bolso. Como vou pagar essa merda, se perguntou. Bosta, vou ter que mendigar. Que cu. Caralho, seu soubesse roubar, preferia roubar. Tudo isso se embaralhava na cabecinha dela, adornada por cabelos bem pretos.
Bom, nesse momento a pequenina chegou a conclusão de que teria de inventar uma história. Não posso deixar que eles saibam que ‘tô perdida. Senão vão chamar a polícia, vão ligar em casa. Vai ser uma confusão dos diabos. Quero andar de metrô só. Que porra, exclamou alto, para que todos ouvissem, e se perguntou, Que história eu posso inventar pra conseguir uns reais.
Nisso, ela continuou andando de lá para cá. Não parava um minuto para pensar. Pensava andando debaixo dos pés das pessoas, que caminhavam lá em cima. Preciso bolar uma porra de um plano pra conseguir essa grana. Aproximou-se de um senhor careca e com cabelos brancos nas fontes e na nuca – Esse tem cara de que me comeria, pensou – e ficou parada do lado. Estavam em uma espécie de banca de revistas subterrânea. Ficou, ficou olhando um doce muito. Fez cara de pidona. Não teve coragem de pedir um. O velho colocou o jornal debaixo do braço e saiu. Ela encheu a boca, Veado. O velho virou a cabeça para olhar; fez cara de assustado; passou o jornal para debaixo do outro braço e saiu.
Ela tentou de novo. Dessa vez foi com um gordo que comprava uma revista. Ela ficou ali, bem vestida, olhando a vitrine. Quer, o gordinho perguntou. Quero; me dá o dinheiro que em compro, ela se apressou em dizer e sorriu. O fofo, no entanto, já tinha entrado na banca e saiu mostrando os chicletes como um prêmio. Estendeu para ela. Ela pegou e agradeceu, Obrigada (seu gordo escroto – isso ela pensou). O balofo saiu rindo da boa ação.
Merda. Merda mil vezes. Ou eu chupo essa boceta desse chiclete ou eu vendo essa porra. Vou tentar vender. Ela então teve a idéia de tentar vender o doce; assim conseguiria o dinheiro para ir embora. Tinha se esquecido que não sabia como ir. Aproximou-se de uma mulher e ofereceu, Quer comprar. A mulher negou com a cabeça e saiu. Puta. Tentou um jovem. Bicha. Uma menina. Vadia. Outro garoto. Cuzão. Outro senhor. Corno. Outro. Cacete, só tem filho da puta no mundo.
Resolveu se afastar da banca. Porra, vamos ver se aqui dá certo. Chegou perto de uma mulher que esperava o metrô. Moça, você pode comprar meu último pacote de chicletes pra me ajudar, disse, fazendo cara de coitada. Quanto é, perguntou a outra, olhando para baixo. Cinco reais. Cinco reais, espantou-se. ‘Tá, eu faço por quatro pra senhora. Senhora está no céu. ‘Tá, senhorita. Eu tenho três. Dá; toma, disse, estendendo o chiclete. Porra, que dificuldade. Agora acho que esse dinheiro dá.
Voltou para o início, no ponto em que olhava o mapa das estações. Com todo esforço do mundo tentou se lembrar do nome da estação. Merda de memória. Lembrou-se, sim, do telefone de casa. Poderia ligar a cobrar, mas não quis ligar. Queria pegar o metrô. Ficou alguns minutos lendo os nomes das estações. Sabia que era a linha azul. Caralho, caralho, caralho, lembra, disse batendo com a mão na cabeça.
O máximo que conseguiu foi recordar como era a estação que sempre descia com os pais. Vou tentar, então. Por um momento vacilou e ficou com medo de passar da estação ou descer antes. Aí se perderia de vez. Não tinha escolha, pensou. Outra: quero andar de metrô sozinha. E quer saber, Foda-se. A expressão caiu de sua boca feito uma pedra: saiu arredondada, dura, pesada. Alguns até se viraram para olhar quem tinha proferido tais palavras. Logo, porém, desviraram as caras e continuaram a entrar no vagão, feito búfalos enfurecidos.
Ela ficou parada perto da porta, estorvando quem se apertava para desviar dela. Quase foi atropelada; muitos só viam que ela estava ali quando por pouco não passavam em cima dela. Foi, no entanto, inevitável. Um moço todo engomado e carregando uma pasta trombou na menininha. Também foi inevitável que ela murmurasse, recompondo-se, Só tem filho da puta nessa merda de mundo, viu. Depois, Vou entrar nessa porcaria de metrô.
Espremeu-se entre os grandalhões e penetrou no vagão antes que a porta se fechasse. Quase caiu quando a máquina rugiu e arrancou, veloz. Não conseguiu se segurar, já que não alcançava as barras de ferro afixadas no teto. Bosta. Ninguém a ajudou. Foi tateando entre pernas de adultos até conseguir se segurar em um dos bancos. Ali ficou, tentando olhar para fora e identificar a estação.
A viagem seguiu sacolejante. O metrô parou na primeira, na segunda, na outra e nas outras estações. Caralho, acho que é aqui, pensou. Dá licença, dá licença, abriu caminho entre os grandões. É aqui, acho. Saltou fora do vagão e ganhou a liberdade da minhoca metálica antes que ela começasse a se mover novamente. Ainda entre as pessoas, correu para a escada que levava para fora da estação. O metrô já havia desaparecido dentro do buraco.
Subia os degraus para confirmar se era ali mesmo que deveria ter descido. Foi correndo toda estabanada, pisando no vestido, com pulos infantis. Parecia que pisava em navalhas de barbear ou cacos de vidro. Quando ganhou a luz, tirando o nariz para fora do buraco da estação, sentiu o barulho de buzinas e motores preencherem seus ouvidos; uma brisa fresca chacoalhou os cabelos da menina. Ela sorriu. Eu também sou uma filha da puta, pensou, uma grandíssima filhinha da puta.
Foi então que uma vez aconteceu isso, assim. A menina pequena, 8, parou em frente a uma placa do metrô. Mesmo perdida do pai, não se intimidou. Mapa filha da puta – soltou. Ficou olhando os caminhos do mapa que nada diziam. As pessoas passavam, passavam correndo. Caralho, que merda. Não lembro onde é minha casa. Não sei em qual estação parar. Porra, minha mãe fodeu minha vida quando soltou minha mão. Que desgraça.
Para se encontrar, a menina pensou em perguntar para alguém; pedir uma informação. Em qual estação eu tenho que descer para ir para o e disse o nome do bairro. Não sei, não sou daqui, respondeu um moleque grandalhão, meio monstrengo. Mais um burro, seu filho da puta, ela atacou. Só tem filho da puta na porcaria desse mundo, disse alto.
Depois disso, ela decidiu que não ia perguntar mais nada para ninguém. Foda-se, pensou. Foi andando pelo meio das pessoas grandes. Mesmo com 8, era bem mirradinha e pequenina. Ia costurando entre as pernas, trombando em joelhos e empurrando bundas empanturradas. Sai da frente, sua puta. Caralho, não tenho um puto no bolso. Como vou pagar essa merda, se perguntou. Bosta, vou ter que mendigar. Que cu. Caralho, seu soubesse roubar, preferia roubar. Tudo isso se embaralhava na cabecinha dela, adornada por cabelos bem pretos.
Bom, nesse momento a pequenina chegou a conclusão de que teria de inventar uma história. Não posso deixar que eles saibam que ‘tô perdida. Senão vão chamar a polícia, vão ligar em casa. Vai ser uma confusão dos diabos. Quero andar de metrô só. Que porra, exclamou alto, para que todos ouvissem, e se perguntou, Que história eu posso inventar pra conseguir uns reais.
Nisso, ela continuou andando de lá para cá. Não parava um minuto para pensar. Pensava andando debaixo dos pés das pessoas, que caminhavam lá em cima. Preciso bolar uma porra de um plano pra conseguir essa grana. Aproximou-se de um senhor careca e com cabelos brancos nas fontes e na nuca – Esse tem cara de que me comeria, pensou – e ficou parada do lado. Estavam em uma espécie de banca de revistas subterrânea. Ficou, ficou olhando um doce muito. Fez cara de pidona. Não teve coragem de pedir um. O velho colocou o jornal debaixo do braço e saiu. Ela encheu a boca, Veado. O velho virou a cabeça para olhar; fez cara de assustado; passou o jornal para debaixo do outro braço e saiu.
Ela tentou de novo. Dessa vez foi com um gordo que comprava uma revista. Ela ficou ali, bem vestida, olhando a vitrine. Quer, o gordinho perguntou. Quero; me dá o dinheiro que em compro, ela se apressou em dizer e sorriu. O fofo, no entanto, já tinha entrado na banca e saiu mostrando os chicletes como um prêmio. Estendeu para ela. Ela pegou e agradeceu, Obrigada (seu gordo escroto – isso ela pensou). O balofo saiu rindo da boa ação.
Merda. Merda mil vezes. Ou eu chupo essa boceta desse chiclete ou eu vendo essa porra. Vou tentar vender. Ela então teve a idéia de tentar vender o doce; assim conseguiria o dinheiro para ir embora. Tinha se esquecido que não sabia como ir. Aproximou-se de uma mulher e ofereceu, Quer comprar. A mulher negou com a cabeça e saiu. Puta. Tentou um jovem. Bicha. Uma menina. Vadia. Outro garoto. Cuzão. Outro senhor. Corno. Outro. Cacete, só tem filho da puta no mundo.
Resolveu se afastar da banca. Porra, vamos ver se aqui dá certo. Chegou perto de uma mulher que esperava o metrô. Moça, você pode comprar meu último pacote de chicletes pra me ajudar, disse, fazendo cara de coitada. Quanto é, perguntou a outra, olhando para baixo. Cinco reais. Cinco reais, espantou-se. ‘Tá, eu faço por quatro pra senhora. Senhora está no céu. ‘Tá, senhorita. Eu tenho três. Dá; toma, disse, estendendo o chiclete. Porra, que dificuldade. Agora acho que esse dinheiro dá.
Voltou para o início, no ponto em que olhava o mapa das estações. Com todo esforço do mundo tentou se lembrar do nome da estação. Merda de memória. Lembrou-se, sim, do telefone de casa. Poderia ligar a cobrar, mas não quis ligar. Queria pegar o metrô. Ficou alguns minutos lendo os nomes das estações. Sabia que era a linha azul. Caralho, caralho, caralho, lembra, disse batendo com a mão na cabeça.
O máximo que conseguiu foi recordar como era a estação que sempre descia com os pais. Vou tentar, então. Por um momento vacilou e ficou com medo de passar da estação ou descer antes. Aí se perderia de vez. Não tinha escolha, pensou. Outra: quero andar de metrô sozinha. E quer saber, Foda-se. A expressão caiu de sua boca feito uma pedra: saiu arredondada, dura, pesada. Alguns até se viraram para olhar quem tinha proferido tais palavras. Logo, porém, desviraram as caras e continuaram a entrar no vagão, feito búfalos enfurecidos.
Ela ficou parada perto da porta, estorvando quem se apertava para desviar dela. Quase foi atropelada; muitos só viam que ela estava ali quando por pouco não passavam em cima dela. Foi, no entanto, inevitável. Um moço todo engomado e carregando uma pasta trombou na menininha. Também foi inevitável que ela murmurasse, recompondo-se, Só tem filho da puta nessa merda de mundo, viu. Depois, Vou entrar nessa porcaria de metrô.
Espremeu-se entre os grandalhões e penetrou no vagão antes que a porta se fechasse. Quase caiu quando a máquina rugiu e arrancou, veloz. Não conseguiu se segurar, já que não alcançava as barras de ferro afixadas no teto. Bosta. Ninguém a ajudou. Foi tateando entre pernas de adultos até conseguir se segurar em um dos bancos. Ali ficou, tentando olhar para fora e identificar a estação.
A viagem seguiu sacolejante. O metrô parou na primeira, na segunda, na outra e nas outras estações. Caralho, acho que é aqui, pensou. Dá licença, dá licença, abriu caminho entre os grandões. É aqui, acho. Saltou fora do vagão e ganhou a liberdade da minhoca metálica antes que ela começasse a se mover novamente. Ainda entre as pessoas, correu para a escada que levava para fora da estação. O metrô já havia desaparecido dentro do buraco.
Subia os degraus para confirmar se era ali mesmo que deveria ter descido. Foi correndo toda estabanada, pisando no vestido, com pulos infantis. Parecia que pisava em navalhas de barbear ou cacos de vidro. Quando ganhou a luz, tirando o nariz para fora do buraco da estação, sentiu o barulho de buzinas e motores preencherem seus ouvidos; uma brisa fresca chacoalhou os cabelos da menina. Ela sorriu. Eu também sou uma filha da puta, pensou, uma grandíssima filhinha da puta.
enquanto você dorme
eu fico aqui, zelando seu sono
como quem come
como se eu fosse seu dono
dona de um sono profundo
eu fico aqui, guardando seu reino
feito quem fere
ou prefere o perfeito
sim, mesmo de longe
eu fico aqui, vendo você
tipo quem onde
lembrando quem vê
eu fico aqui, zelando seu sono
como quem come
como se eu fosse seu dono
dona de um sono profundo
eu fico aqui, guardando seu reino
feito quem fere
ou prefere o perfeito
sim, mesmo de longe
eu fico aqui, vendo você
tipo quem onde
lembrando quem vê
11 Setembro 2009
"Se a literatura de uma nação entra em declínio a nação se atrofia e decai".
Ezra Pound, ABC da literatura, pág. 36
Ezra Pound, ABC da literatura, pág. 36
24 Agosto 2009
"E o elefante. Formulada desta maneira, tão rústica quanto directa, a pergunta podia simplesmente ser ignorada, mas o comandante pensou que devia a este homem um favor e portanto foi um sentimento parente da gratidão que o fez dizer, Está atrás daquelas árvores, onde passámos a noite, Nunca vi um elefante na minha vida, disse o feitor com voz triste, como se de ver um elefante dependesse a sua felicidade e a dos seus,"
José Saramago, A viagem do elefante, pág. 61
José Saramago, A viagem do elefante, pág. 61
"Não poder. Vontade. Eu quero. Portanto é a velha carne afinal, não importa quão velha. Porque se a memória existe fora da carne, não será memória, pois não saberá do que se lembra, de forma que quando ela deixou de ser então metade da memória deixou de ser e se eu deixar de ser, toda a lembrança deixará de existir. Sim - pensou - entre a dor e o nada, escolherei a dor. "
William Faulkner, Palmeiras Selvagens, pág. 281.
William Faulkner, Palmeiras Selvagens, pág. 281.
17 Agosto 2009
Miosótis
Muito de ti é meu fecundo alegrar.
Incandescente na luz do meu ensejo
Ouço crescente meu peito declamar:
Só a ti devoto meu mundo-desejo.
Ó, que és teu este criança-coração
Toda tua é esta alegria que arde sã
Isto que: és flor que brotas no Sertão
Semeando a bonança do amanhã.
Muito de ti é meu fecundo alegrar.
Incandescente na luz do meu ensejo
Ouço crescente meu peito declamar:
Só a ti devoto meu mundo-desejo.
Ó, que és teu este criança-coração
Toda tua é esta alegria que arde sã
Isto que: és flor que brotas no Sertão
Semeando a bonança do amanhã.
13 Agosto 2009
poeminha infantil
eu não sei de nada.
talvez quem saiba seja o diabo
com sua barba de bode
seu bigode de escova
sua cova mal cavada
o enterrado em cova rasa.
eu não sei de tudo.
quem sabe das coisas do mundo
talvez seja o cristo jesus
encerrado em sua crosta de luz
com as chagas brotando pus
todo dia morrendo na cruz
por ser mal crucificado
coitado...
eu não sei de nada.
talvez quem saiba seja o diabo
com sua barba de bode
seu bigode de escova
sua cova mal cavada
o enterrado em cova rasa.
eu não sei de tudo.
quem sabe das coisas do mundo
talvez seja o cristo jesus
encerrado em sua crosta de luz
com as chagas brotando pus
todo dia morrendo na cruz
por ser mal crucificado
coitado...
10 Agosto 2009
O Sangue de Davi
Somente o terror e os sonhos são capazes de embaralhar o tempo. Pretérito (pois o passado é estritamente verbo) e porvir se misturam sem que se possa distinguir nitidamente o que se vive e o que se vê. Nesta verdade, épocas, pessoas e situações distintas coexistem diante dos olhos – às vezes, não sem conflito.
Hoje sou um velho e minha única história é ligada ao medo. Estávamos em 1944 ou 1945; ou qualquer um dos outros anos de guerra. Na época, eu era um jovem repórter em início de carreira. A Alemanha era minha terra (mas podia ser a Rússia, a Polônia, Israel, o Brasil ou qualquer outra pátria dominado por opressores). Os anos de guerra fizeram desse tempo um tempo pálido e de sombras. Antecipo: Se não enfrentei, foi para preservar a espécie. Embora difícil admitir, a covardia é a proteção mais eficaz, não a coragem. A teoria evolucionista talvez tenha desconsiderado o mais vil dos sentimentos.
Pouco ou quase nada me lembro daquele momento. Como se eu não reconhecesse diante dos olhos a Alemanha de meus dias, corria com iguais (uma sugestão que parecia minha mãe estava conosco) entre edifícios mais altos e com maior luxo que os que antecederam a guerra. A cidade estava abandonada. Feito os roedores mais execráveis, meu grupo procurava qualquer buraco que pudesse nos abrigar. Não pensávamos: o medo nos impelia a buscar proteção. Eu não temia pelos outros, nem por mim – era um medo anterior a mim; meu terror era enorme, mas calmo; puro, mas sem pânico.
Estranhamente, encontramos um prédio muito alto; o natural seria encontrar abrigo em um porão. Subimos discutindo em qual dos três patamares deveríamos ficar: se na base, caso viessem pelo alto; se no meio, caso chegassem pelas pontas; se em cima, caso cansassem de subir os milhares de degraus que subimos sem fadiga. Não entediamos que em qualquer dos três pisos o destino era o mesmo: o inferno – que é a representação católica da morte sem descanso. Eles nos alcançariam de qualquer forma. Quando o fascismo se instaura (e ele existe em ciclos concêntricos), é negado por princípio o céu e até mesmo o purgatório.
Chegamos aos andares mais altos abrindo as pesadas portas corta-fogo. Encontramos um apartamento que, pelos meus conhecimentos de engenharia, não deveria estar ali; no local deveria haver um terraço libertador e convidativo ao suicídio. O apartamento parecia não ter janelas. Não me recordo se não decidimos acender as luzes, mas o apartamento (não consigo mensurar se era pequeno ou grande) estava na penumbra, como que repetindo o espírito que se espalhara do lado de fora. Lembro-me, porém, que o televisor estava ligado. Os outros assistiam a destruição que se abatera; eu apenas tinha medo e não conseguia me concentrar em outra coisa que não fosse esse medo.
Gigante feito um Golias enfurecido, eu tinha certeza que o exército nazista marchava contra nós. Não via os homens do Führer, mas sentia seus olhares de ciclope a nos observar. Não tive a coragem de enfrentá-los. Não saí às ruas para conter os passos do mal. Escondi-me com os meus e pensei planos para esconder-nos ainda mais. Sugeri a uma das mulheres (já não tinha mais a cara de minha mãe) que arrumássemos o restante da casa desarrumada antes que os soldados chegassem. Minha idéia era tapeá-los ainda mais; fazê-los crer que, na ordem das camas e sofás, não havia vida ali. Não adiantou. Os outros estavam prostrados, pareciam que já acostumados com destino de morte que logo chegaria fazendo barulho. Só esperavam que os homens de Hitler entrassem pela porta trazendo o horror negro e arrancassem de nossas gargantas as vozes.
De um dos meninos, não vi sua face, só ouvi o grito de ave: “O sangue de Davi, o sangue de Davi, o sangue de Davi...”
No mesmo momento, as ruas estavam desertas; nada se movia lá embaixo. Uma luz sem precedentes iluminava a rua revirada. Ao mesmo tempo em que tudo estava um caos, todos os objetos eram de uma limpeza que só existiria depois das guerras. O vazio e o silêncio eram o mesmo do momento que se segue após as grandes chuvas; aquele hiato entre o fim das águas e a tomada das ruas pelas pessoas. Não me recordo de ter visto a chuva ou ouvido o seu som, ainda assim, as ruas estavam molhadas. Também não me recordo de ter visto estas ruas, ainda que saiba delas.
Antes que os nazistas chegassem, eu despertei.
Pós-escrito: Acabo de despertar do sonho; ainda assustado, procuro-lhe um significado no livro de Samuel. A chave é o grito do menino. Descubro a amizade homoerótica de Jonatas, filho de Saul, o primeiro rei de Israel, e Davi, o jovem corajoso que matou o gigante. Relaciono o “sono profundo da parte de Deus” que se abate sobre Saul como meu próprio sono. Saul persegue Davi para matá-lo antes que este assuma o trono de Israel; Saul acaba por se matar com o próprio ferro. O reinado de Saul foi desastroso, como fora o de Hitler. Saul é Hitler; eu não sou Davi.
Somente o terror e os sonhos são capazes de embaralhar o tempo. Pretérito (pois o passado é estritamente verbo) e porvir se misturam sem que se possa distinguir nitidamente o que se vive e o que se vê. Nesta verdade, épocas, pessoas e situações distintas coexistem diante dos olhos – às vezes, não sem conflito.
Hoje sou um velho e minha única história é ligada ao medo. Estávamos em 1944 ou 1945; ou qualquer um dos outros anos de guerra. Na época, eu era um jovem repórter em início de carreira. A Alemanha era minha terra (mas podia ser a Rússia, a Polônia, Israel, o Brasil ou qualquer outra pátria dominado por opressores). Os anos de guerra fizeram desse tempo um tempo pálido e de sombras. Antecipo: Se não enfrentei, foi para preservar a espécie. Embora difícil admitir, a covardia é a proteção mais eficaz, não a coragem. A teoria evolucionista talvez tenha desconsiderado o mais vil dos sentimentos.
Pouco ou quase nada me lembro daquele momento. Como se eu não reconhecesse diante dos olhos a Alemanha de meus dias, corria com iguais (uma sugestão que parecia minha mãe estava conosco) entre edifícios mais altos e com maior luxo que os que antecederam a guerra. A cidade estava abandonada. Feito os roedores mais execráveis, meu grupo procurava qualquer buraco que pudesse nos abrigar. Não pensávamos: o medo nos impelia a buscar proteção. Eu não temia pelos outros, nem por mim – era um medo anterior a mim; meu terror era enorme, mas calmo; puro, mas sem pânico.
Estranhamente, encontramos um prédio muito alto; o natural seria encontrar abrigo em um porão. Subimos discutindo em qual dos três patamares deveríamos ficar: se na base, caso viessem pelo alto; se no meio, caso chegassem pelas pontas; se em cima, caso cansassem de subir os milhares de degraus que subimos sem fadiga. Não entediamos que em qualquer dos três pisos o destino era o mesmo: o inferno – que é a representação católica da morte sem descanso. Eles nos alcançariam de qualquer forma. Quando o fascismo se instaura (e ele existe em ciclos concêntricos), é negado por princípio o céu e até mesmo o purgatório.
Chegamos aos andares mais altos abrindo as pesadas portas corta-fogo. Encontramos um apartamento que, pelos meus conhecimentos de engenharia, não deveria estar ali; no local deveria haver um terraço libertador e convidativo ao suicídio. O apartamento parecia não ter janelas. Não me recordo se não decidimos acender as luzes, mas o apartamento (não consigo mensurar se era pequeno ou grande) estava na penumbra, como que repetindo o espírito que se espalhara do lado de fora. Lembro-me, porém, que o televisor estava ligado. Os outros assistiam a destruição que se abatera; eu apenas tinha medo e não conseguia me concentrar em outra coisa que não fosse esse medo.
Gigante feito um Golias enfurecido, eu tinha certeza que o exército nazista marchava contra nós. Não via os homens do Führer, mas sentia seus olhares de ciclope a nos observar. Não tive a coragem de enfrentá-los. Não saí às ruas para conter os passos do mal. Escondi-me com os meus e pensei planos para esconder-nos ainda mais. Sugeri a uma das mulheres (já não tinha mais a cara de minha mãe) que arrumássemos o restante da casa desarrumada antes que os soldados chegassem. Minha idéia era tapeá-los ainda mais; fazê-los crer que, na ordem das camas e sofás, não havia vida ali. Não adiantou. Os outros estavam prostrados, pareciam que já acostumados com destino de morte que logo chegaria fazendo barulho. Só esperavam que os homens de Hitler entrassem pela porta trazendo o horror negro e arrancassem de nossas gargantas as vozes.
De um dos meninos, não vi sua face, só ouvi o grito de ave: “O sangue de Davi, o sangue de Davi, o sangue de Davi...”
No mesmo momento, as ruas estavam desertas; nada se movia lá embaixo. Uma luz sem precedentes iluminava a rua revirada. Ao mesmo tempo em que tudo estava um caos, todos os objetos eram de uma limpeza que só existiria depois das guerras. O vazio e o silêncio eram o mesmo do momento que se segue após as grandes chuvas; aquele hiato entre o fim das águas e a tomada das ruas pelas pessoas. Não me recordo de ter visto a chuva ou ouvido o seu som, ainda assim, as ruas estavam molhadas. Também não me recordo de ter visto estas ruas, ainda que saiba delas.
Antes que os nazistas chegassem, eu despertei.
Pós-escrito: Acabo de despertar do sonho; ainda assustado, procuro-lhe um significado no livro de Samuel. A chave é o grito do menino. Descubro a amizade homoerótica de Jonatas, filho de Saul, o primeiro rei de Israel, e Davi, o jovem corajoso que matou o gigante. Relaciono o “sono profundo da parte de Deus” que se abate sobre Saul como meu próprio sono. Saul persegue Davi para matá-lo antes que este assuma o trono de Israel; Saul acaba por se matar com o próprio ferro. O reinado de Saul foi desastroso, como fora o de Hitler. Saul é Hitler; eu não sou Davi.
07 Agosto 2009
"Como certas cidades, como certas pessoas, uma parte muito grata do meu destino foram os livros. Poderei repetir que a biblioteca de meu pai foi o fato capital de minha vida? A verdade é que nunca saí dela, como nunca saiu da sua Alonso Quijano. "
Jorge Luís Borges, Epílogo de "História da Noite" (em Obras completas III, pág. 221)
Jorge Luís Borges, Epílogo de "História da Noite" (em Obras completas III, pág. 221)
27 Julho 2009
"Nada mais irrita uma pessoa honesta do que a resistência passiva. Se o indivíduo ao qual resiste não for desumano, e o que resiste, inofensivo, então o primeiro, com a maio boa vontade, vai se empenhar para que sua imaginação construa com caridade aquilo que foi impossível resolver com a razão".
Hermam Melville, Bartleby, o escrivão - Uma história de Wall Street; pág. 12
Hermam Melville, Bartleby, o escrivão - Uma história de Wall Street; pág. 12
10 Julho 2009
"(...) dizia-me: está seguindo você com a vista, os santos seguem você com a vista; Pedro, o que crucificaram de cabeça para baixo, e André, que pregaram com a cruz inclinada - daí, cruz de santo André. Além dessa, há também uma cruz grega, ao lado da cruz latina ou a cruz da Paixão. Nos tapetes, quadros e livros reproduzem cruzes recruzadas, cruzes com âncoras e cruzes graduadas. Eu via cruzada em relevo a cruz em garra, a cruz em âncora e a cruz em trevo. Bela é cruz de Gleven, cobiçada a de Malta e proibida a cruz gamada, a cruz de Gaulle, a cruz de Lorena; nos desastres navais invoca-se a cruz de santo Antônio: crossing the T. Na correntinha a cruz pendente, feia a cruz dos ladrões, pontifícia a cruz do papa, e essa cruz russa que também se designa com a cruz de Lázaro. Também há a Cruz Vermelha. E a Cruz Azul. Os cruzeiros fundem-se, a Cruzada me converteu, as aranhas cruzeiras se devoram entre si, cruzamo-nos nas encruzilhadas, prova crucial, as palavras cruzadas dizem: resolvam-me."
Günter Grass, O Tambor, pág. 163
Günter Grass, O Tambor, pág. 163
03 Julho 2009
olha
agora vê se não fuja de mim
não deixe
não solta a minha mão
só pensa que o amor...
... que amor é assim
pensa
que a vida é hoje
e não há mais depois
sente agora
somos só nós dois
mesmo que estejamos sós
veja
que a beleza depende de nós
a alegria depende de nós
e o amor depende de nós
mesmo que sejamos só
agora vê se não fuja de mim
não deixe
não solta a minha mão
só pensa que o amor...
... que amor é assim
pensa
que a vida é hoje
e não há mais depois
sente agora
somos só nós dois
mesmo que estejamos sós
veja
que a beleza depende de nós
a alegria depende de nós
e o amor depende de nós
mesmo que sejamos só
29 Junho 2009
"O perigo, se é que existia, decorria da nossa proximidade de uma grande e desenfreada comoção humana. Até uma dor profunda é capaz de, no extremo, transformar-se em violência... ainda que, mais freqüentemente, assuma a forma de apatia..."
Joseph Conrad, No coração das trevas -pág. 84.
Joseph Conrad, No coração das trevas -pág. 84.
24 Junho 2009
"O fluxo da maré corre em vaivém, no seu trabalho constante, pleno de lembranças de homens e barcos por ele transportados ao denscanso do lar ou às batalhas do mar. (...) Conheceu navios e homens. Haviam partido de Deptford, de Greenwinch e Erith - aventureiros e colonos; navios de reis e navios de comerciantes; capitães, almirantes, "atravessadores" tenebrosos do comércio com o Oriente, e "generais" comissionados das frotas das Índias Orientais. No encalço de ouro ou fama, todos haviam fluído por aquela correnteza empunhando a espada, e muitas vezes a tocha, mensageiros poderosos, portadores de centelha do fogo sagrado. Que grandeza não terá flutuado na vazante daquele rio, rumando ao mistério de uma terra desconhecida!... Sonhos de homens, semente de nações, germes de impérios... "
Joseph Conrad, No Coração das Trevas; pág. 24 e 25.
Joseph Conrad, No Coração das Trevas; pág. 24 e 25.
16 Junho 2009
minha mão esquerda está podre
minha mão esquerda está podre.
minha mão esquerda está podre até o pulso
até para lá do pulso.
não adianta eu lavar
nem mesmo cortar fora
nem mesmo arrancar fora
nem mesmo decepar fora
nada disso adianta.
minha mão esquerda está podre
e todas as pessoas já viram.
ela exala o cheiro da sua podridão
(mas não é cheiro de lixo,
nem cheiro de animais mortos,
muito menos fragrâncias ou perfumes:
é um cheiro que nunca existiu,
que não tem precedentes,
um cheiro de nada, mas que existe:
é cheiro de mão esquerda podre).
o doutor confirmou:
minha mão esquerda está podre.
ele disse, no entanto, que cura não há,
remédio não há,
nem solução não há.
só há essa mão podre que não serve para nada.
o padre benzeu a missa,
pediu extrema-unção e disse que mesmo
eu me arrependendo de todos os pecados
vai ficar lá, uma mão esquerda podre.
os políticos trataram meu caso com extremo cuidado,
caso de segurança nacional.
uma mão esquerda podre é muito perigosa.
mas logo a minha, que não sei o que fazer com ela!
minha mão esquerda está podre.
ela não dói, não arde, não parece.
antes espalhasse uma doença,
antes me desse poder de tocar as pessoas,
antes me concedesse direitos,
antes fosse fruto de prazer.
não. é só uma mão esquerda podre,
dessas que se espalham por aí a cada dia
e que a gente não percebe
que todo mundo percebe
até que seja a nossa.
minha mão esquerda está podre
e não há o que se fazer.
não posso arrancá-la fora,
não posso nada.
não posso me arrepender,
não devo me revoltar,
pegar em armas não posso
pois minha mão podre não suporta.
acariciar a pela da amada eu não posso
pois a amada não suporta.
eu não tenho nada,
só uma mão esquerda podre
e não há o que se fazer.
minha mão esquerda está podre.
minha mão esquerda está podre até o pulso
até para lá do pulso.
não adianta eu lavar
nem mesmo cortar fora
nem mesmo arrancar fora
nem mesmo decepar fora
nada disso adianta.
minha mão esquerda está podre
e todas as pessoas já viram.
ela exala o cheiro da sua podridão
(mas não é cheiro de lixo,
nem cheiro de animais mortos,
muito menos fragrâncias ou perfumes:
é um cheiro que nunca existiu,
que não tem precedentes,
um cheiro de nada, mas que existe:
é cheiro de mão esquerda podre).
o doutor confirmou:
minha mão esquerda está podre.
ele disse, no entanto, que cura não há,
remédio não há,
nem solução não há.
só há essa mão podre que não serve para nada.
o padre benzeu a missa,
pediu extrema-unção e disse que mesmo
eu me arrependendo de todos os pecados
vai ficar lá, uma mão esquerda podre.
os políticos trataram meu caso com extremo cuidado,
caso de segurança nacional.
uma mão esquerda podre é muito perigosa.
mas logo a minha, que não sei o que fazer com ela!
minha mão esquerda está podre.
ela não dói, não arde, não parece.
antes espalhasse uma doença,
antes me desse poder de tocar as pessoas,
antes me concedesse direitos,
antes fosse fruto de prazer.
não. é só uma mão esquerda podre,
dessas que se espalham por aí a cada dia
e que a gente não percebe
que todo mundo percebe
até que seja a nossa.
minha mão esquerda está podre
e não há o que se fazer.
não posso arrancá-la fora,
não posso nada.
não posso me arrepender,
não devo me revoltar,
pegar em armas não posso
pois minha mão podre não suporta.
acariciar a pela da amada eu não posso
pois a amada não suporta.
eu não tenho nada,
só uma mão esquerda podre
e não há o que se fazer.
12 Junho 2009
tic tac
ainda são 7h40
o relógio na cadeia
ainda em camera lenta.
tique e taque ainda são sete e quarenta o relógio na cadeia anda em camera lenta.
ainda são 7h40
o relógio na cadeia
ainda em camera lenta.
tique e taque ainda são sete e quarenta o relógio na cadeia anda em camera lenta.
09 Junho 2009
Alguns artifícios não raros são mecanismos para que o fantástico aconteça: a) uma festa de carnaval; b) uma terra distante e desconhecida; c) a boca de aventureiros; d) a reunião em propriedade de estranhos; e) uma noite de sonhos intranquilos; f) a própria realidade distorcida; g) as tramas detetivescas ou policiais; h) as febres noturnas e as doenças; i) o mar; j) a pobreza; etc.
Bioy Casares e Schnitlzer usam noites misteriosas (e de bebedeira) em festas; os narradores de histórias presenciadas em locais de nomes muitas vezes impronunciáveis estão em Calvino; as terras de hábitos estranhos, quase confundidos com acontecimentos fantásticos (e com seres extraordinários), são temas de Swift, Kipling, Borges; até nos mais prosaicos e realistas, a narração produz situações irreais, como em Joyce ou Faulkner. Poe transforma um macaco gigante em um cruel assassino; Kafka faz de um homem comum um inseto; Garcia Marquez torna uma simples pedra de gelo em algo de outro mundo; Thomas Mann faz um artista ver o diabo; Dostoievski ampara em teorias o motivo de um crime sórdido cometido por um homem honrado, que anda por aí feito um anjo pálido.
A história de Ibraim Camargo, ao contrário das citadas, creio nada ter de fantástica, misteriosa, sobrenatural ou extraordinária - o adjetivo não importa. Ouvi-a de sua própria boca, em bar tomando um trago, durante o período em que cobria um conflito no Sul extremo e só pensava em Lucia. No balcão, conversamos algumas outras coisas desinteressantes até que ele começasse a relatar os acontecimentos de uma tarde passada. Não nos conhecíamos até aquela noite. Não sei por que me elegeu para ouví-los (se confiou em mim ou se me julgou tolo demais). A partir de certo momento, ele me narrou:
''Eu amava uma mulher. Marcamos pela manhã um encontro em sua casa no final da tarde. Ainda lembro-me dela me jurando amor. Mais tarde, passaria para pegá-la. Não sem emoção de sua lembrança, sai de casa. Em meu caminho, começou a chover estrupícios. Eu não tinha automóvel; maldisse a chuva e minha vida. Parei debaixo de uma tenda até que a chuva terminasse. Não sei contabilizar quanto tempo se passou. Quando parou de chover, um sol mais forte que o comum para o horário se abriu. Considerei que aquilo era normal depois negras chuvas e que, de certa forma, representava a esperança. Corri até o endereço dela. Entrei sem bater. No local, havia muita gente desconhecida. No afã de vê-la, não estranhei. Fui me embrenhando em meio as pessoas até chegar mais perto. Todos me olhavam com reprovação. Avistei mais a frente o rosto da bem amada. Fui até ela. Antes, sobre sua cabeça, vi que a imagem do Crucificado vigiava o salão. Era uma igreja. Quando percebi melhor, ela se casava com outro homem''.
Ficou em silêncio. Diante da minha mudez que não se interrompia, citou (eu só reconheceria depois): ''Todo o tempo ficamos rindo dos desconfortos, sem entender que eram os dias mais felizes da nossa vida''.
Bioy Casares e Schnitlzer usam noites misteriosas (e de bebedeira) em festas; os narradores de histórias presenciadas em locais de nomes muitas vezes impronunciáveis estão em Calvino; as terras de hábitos estranhos, quase confundidos com acontecimentos fantásticos (e com seres extraordinários), são temas de Swift, Kipling, Borges; até nos mais prosaicos e realistas, a narração produz situações irreais, como em Joyce ou Faulkner. Poe transforma um macaco gigante em um cruel assassino; Kafka faz de um homem comum um inseto; Garcia Marquez torna uma simples pedra de gelo em algo de outro mundo; Thomas Mann faz um artista ver o diabo; Dostoievski ampara em teorias o motivo de um crime sórdido cometido por um homem honrado, que anda por aí feito um anjo pálido.
A história de Ibraim Camargo, ao contrário das citadas, creio nada ter de fantástica, misteriosa, sobrenatural ou extraordinária - o adjetivo não importa. Ouvi-a de sua própria boca, em bar tomando um trago, durante o período em que cobria um conflito no Sul extremo e só pensava em Lucia. No balcão, conversamos algumas outras coisas desinteressantes até que ele começasse a relatar os acontecimentos de uma tarde passada. Não nos conhecíamos até aquela noite. Não sei por que me elegeu para ouví-los (se confiou em mim ou se me julgou tolo demais). A partir de certo momento, ele me narrou:
''Eu amava uma mulher. Marcamos pela manhã um encontro em sua casa no final da tarde. Ainda lembro-me dela me jurando amor. Mais tarde, passaria para pegá-la. Não sem emoção de sua lembrança, sai de casa. Em meu caminho, começou a chover estrupícios. Eu não tinha automóvel; maldisse a chuva e minha vida. Parei debaixo de uma tenda até que a chuva terminasse. Não sei contabilizar quanto tempo se passou. Quando parou de chover, um sol mais forte que o comum para o horário se abriu. Considerei que aquilo era normal depois negras chuvas e que, de certa forma, representava a esperança. Corri até o endereço dela. Entrei sem bater. No local, havia muita gente desconhecida. No afã de vê-la, não estranhei. Fui me embrenhando em meio as pessoas até chegar mais perto. Todos me olhavam com reprovação. Avistei mais a frente o rosto da bem amada. Fui até ela. Antes, sobre sua cabeça, vi que a imagem do Crucificado vigiava o salão. Era uma igreja. Quando percebi melhor, ela se casava com outro homem''.
Ficou em silêncio. Diante da minha mudez que não se interrompia, citou (eu só reconheceria depois): ''Todo o tempo ficamos rindo dos desconfortos, sem entender que eram os dias mais felizes da nossa vida''.
02 Junho 2009
Três cafés para dois
1
Eu sempre amei Lucia. Amei Lucia ainda depois do dia em que ela disse que não poderia se demorar muito conversando comigo. Não sei o que desse amor e conversa influiu em minha vida, em meu modo de sorrir ou de ler. Na escola, eu arrepiava todo quando tocava sua mão para pegar emprestada a borracha (eu não tinha borracha); ela não percebia. Eu sonhava com seus dedos finos, o pescoço magro, o ventre reto - com os pequenos seios que começam a surgir. O duro nome dela -
Lucia - era pronunciado como um portenho o faria, como o acento agudo no "i" e não no "u", como é comum em português; de modo então que demorei a descobri que se dizia Lucía e não Lúcia.
Parecia errado que este nome de velha lhe fosse destinado; parecia que as letras articuladas do nome não poderia pertencer àquela menina quase mimada, vestida de renda, doce, educada; quase um clichê ou uma personagem. Eu não percebia isso. Eu amava Lucia desde antes de começarmos a namorar.
Quando ainda nem pegava em sua mão, já fazíamos planos: a) terminar o curso; b) casar na igreja; c) mudar para a casa grande de vovó, que logo iria morrer; d) ter um monte de filhos. Eu prometia que me tornaria jornalista, culto, autor de livros argentinos (acreditava na proeza da mediocridade que eu escrevia); Lucia me dizia que gostaria das coisas da moda, que decoraria a casa com margaridas e que serviria chá em xícaras do início do século. Seríamos felizes, em nossos planos: uma felicidade sólida, burguesa, perto da família, amparada.
Ao sinal de qualquer empecilho, eu prometia: "Lucia, você vai ver, um dia ainda seremos muito felizes; nos casaremos e teremos filhos; só eu te posso trazer alegria". Eu não percebia a monstruosidade de meus dizeres; eu... que sempre amei Lucia. Tudo o que não era Lucia me entediava. Nossos planos seguiam em linha reta. Tudo se encaminhara: eu me tornara jornalista; Lucia estudara francês.
Seguimos nosso namoro. Os tempos eram outros. Não nos beijávamos em público; falávamos sempre à distância; não nos permitíamos a intimidades na frente das pessoas. Em pouco tempo nos casaríamos, Lucia e eu.
2
Bio era o apelido de Fabrício Adolpho Caeser desde a infância, quando nos conhecemos. Era uma contrição de seu nome (bricio, bicio, bio) nascida no seio familiar. Era um homem vulgar como o apelido assumido por ele, como suas roupas; vulgar até no modo como falava. Nunca cheguei a considerar Bio um amigo; nunca fomos rivais. Conheço a sentença que diz que um homem acaba por assemelhar-se a seus inimigos (ou algo perto disso), no entanto nunca a considerei verdadeira.
Bio era de boa família; ele não. Estava sempre em nosso meio. Frequentava nossas festas, nossos círculos literários, nossos cafés de final de tarde. Como não poderia deixar de ser, estava na festa de recepção de um cineasta francês que estava na cidade por aqueles dias. A festa era em minha casa (me arrependi de tê-la oferecido; eu nunca gostei de cinema ou cineastas). Bio falou um francês exemplar; citou livros. Lucia se divertia com outras mulheres; não recordo do que falavam. Certo momento, olhou-me e sorriu. Reconheci, com ambição, ternura na combinação de seus dentes a mostra e olhos semi-cerrados.
Bio se aproximou de mim. Sua segurança na fala, nos gestos, no sorrir, produziam em mim uma inveja cega (uma inveja que não queria sentir, mas que não procurava evitar). Era como se em certos momentos eu quisesse assumir a posição de Bio, mesmo ele me dando asco. Falou de Lucia em um tom que me pareceu demasiado elogioso. Perguntou se eu havia percebido como ela desabrochara; falava como se a elogiasse para si mesmo; contou uma história nossa de infância. Eu não consegui seguir sua história; não havia entendido seus elogios a Lucia. Com um ar de quem falara algo sem importância, continuou a conversa indagando se eu conhecia aqueles versos de Blake sobre tigres; respondi que sim. Ele me pediu que os achasse na biblioteca. Entendi aquilo como uma forma de me tirar da sala. Para não ser indelicado, fui. Sabia onde estava o livro, fui direto até ele. Estranhamente, não estava lá. Procurei rapidamente. Não encontrei. Tudo o que não era Lucia, e até a literatura, entediava-me.
Na sala, as pessoas pareciam se divertir. Passei os olhos e não encontrei Lucia. A roda em que estava com outras mulheres já havia se dissipado. Tive ódio; este me fez esquecer de Bio e Blake. Circulei, primeiro com os olhos, para ver se a encontrava. Ela estava na outra sala, a de jantar, perto da janela. Sorria. Aproximei-me e percebi que Lucia conversava com Bio. Pouco antes de eu chegar, tive a impressão de que ele lhe afagava os cabelos; não pude me certificar, pois passaram em minha frente. Quando cheguei, não se calaram.
Falavam de uma notícia banal. Bio me perguntou sobre o livro. Respondi, cordialmente, que não o encontrara. "Outro momento passo para buscá-lo", disse Bio. "Qual livro?", cortou Lucia. Bio lhe explicou a história. "Ah...", respondeu ela, colocando a mão sobre o ombro dele. Ainda falamos coisas que minha mente não consegue recordar quando Lucia anunciou que iria embora. "Eu a levo", disse Bio, dirigindo-se a ela e ignorando a minha presença. "Também vou", completei, com a face em chamas.
3
Eu estava de volta. Logo depois da festa em minha casa, fui obrigado a me retirar da cidade por alguns dias. Fora enviado ao Sul extremo para cobrir um conflito. O que deveria durar apenas uma semana acabou por se prolongar por meses ou anos. Era para ser o contrário, mas a saudade de Lucia me impediu de contabilizar por quanto tempo eu ficara fora. Durante esse tempo, trabalhei sem interesse, relatando as mortes, as decisões políticas, as mazelas do povo como meros anacronismos (a estranheza da terra, guardei para mim). Cada gesto alheio, eu presenciava como um sinal da espera de Lucia. Não via hora de revê-la. Estranhamente, ela não respondia minhas cartas.
Desembarquei e tomei uma condução para casa. Antes de entrar, passei no comércio ao lado de casa para comprar água, pão, café e uma peça de presunto. O tempo ali não parecia ter passado. O dono da venda me reconheceu, mesmo por trás da barba cerrada. Indagou coisas que respondi sem sorrir. Guardara estes para Lucia. Antes de entrar em casa, tive ainda a impressão de tê-la visto na janela, como no dia em que conversara com Bio. O vento frio dissipou o pensamento.
Subi; tomei banho; comi; meus gestos eram mecânicos. Pensei no quanto pensara em Lucia enquanto estivera fora: eram repetições, repetições, repetições... Imaginara por meses aquele momento que vivia, pensando em todas as combinações possíveis de como ele sucederia. Decidi telefonar à casa de Lucia para avisar que estava na cidade. Ela prometeu me visitar, mas só no final da tarde. Tentei ler enquanto esperava; o máximo que consegui foi folhear um volume de Beckett que prenunciava o que estava por vir.
Por sorte, não esperei em vão. Preparei café para nós. Quando Lucia tocou a campanhia, meu corpo se agitou por inteiro; não posso esconder que o que senti pode ser chamado felicidade. Beijou-me antes que eu falasse, mas no rosto (ainda guarda o mesmo respeito de antes, pensei). Perguntou-me como estava e disse que não poderia se prolongar: alguém a esperava lá embaixo. Vi pela janela, a mesma de há tempos, que Bio estava impaciente enquanto segurava uma criança de colo.
Quando ela saiu, um livro estava aberto sobre a mesa de centro; fora Lucia quem o deixara; era o poema de Blake; li-o. Não sem terror, resignação e medo, entendi que o intruso era eu, não Bio. O corpo estranho sempre fora eu. Lucia nunca fora a minha namorada, nunca fizera planos comigo, nunca me esperara durante o tempo que estive fora; todas estas coisas eram dedicadas a Bio. Nossa pouca intimidade, que eu interpretava como respeito, era um sinal que não percebi. Na verdade, o vulgar era eu. Lucia nunca me amara e tinha pena de mim; eu confundira esta pena com afeto. No dia da festa em minha casa, era Bio quem deveria levá-la para casa. Entendi que o mundo produz duplicidades (embora eu não entenda estas terríveis simetrias); que o ser humano é monstruoso como as feras e que viver, para muitos, é um destino atroz.
________
publicados na folha:
1
Eu sempre amei Lucia. Amei Lucia ainda depois do dia em que ela disse que não poderia se demorar muito conversando comigo. Não sei o que desse amor e conversa influiu em minha vida, em meu modo de sorrir ou de ler. Na escola, eu arrepiava todo quando tocava sua mão para pegar emprestada a borracha (eu não tinha borracha); ela não percebia. Eu sonhava com seus dedos finos, o pescoço magro, o ventre reto - com os pequenos seios que começam a surgir. O duro nome dela -
Lucia - era pronunciado como um portenho o faria, como o acento agudo no "i" e não no "u", como é comum em português; de modo então que demorei a descobri que se dizia Lucía e não Lúcia.
Parecia errado que este nome de velha lhe fosse destinado; parecia que as letras articuladas do nome não poderia pertencer àquela menina quase mimada, vestida de renda, doce, educada; quase um clichê ou uma personagem. Eu não percebia isso. Eu amava Lucia desde antes de começarmos a namorar.
Quando ainda nem pegava em sua mão, já fazíamos planos: a) terminar o curso; b) casar na igreja; c) mudar para a casa grande de vovó, que logo iria morrer; d) ter um monte de filhos. Eu prometia que me tornaria jornalista, culto, autor de livros argentinos (acreditava na proeza da mediocridade que eu escrevia); Lucia me dizia que gostaria das coisas da moda, que decoraria a casa com margaridas e que serviria chá em xícaras do início do século. Seríamos felizes, em nossos planos: uma felicidade sólida, burguesa, perto da família, amparada.
Ao sinal de qualquer empecilho, eu prometia: "Lucia, você vai ver, um dia ainda seremos muito felizes; nos casaremos e teremos filhos; só eu te posso trazer alegria". Eu não percebia a monstruosidade de meus dizeres; eu... que sempre amei Lucia. Tudo o que não era Lucia me entediava. Nossos planos seguiam em linha reta. Tudo se encaminhara: eu me tornara jornalista; Lucia estudara francês.
Seguimos nosso namoro. Os tempos eram outros. Não nos beijávamos em público; falávamos sempre à distância; não nos permitíamos a intimidades na frente das pessoas. Em pouco tempo nos casaríamos, Lucia e eu.
2
Bio era o apelido de Fabrício Adolpho Caeser desde a infância, quando nos conhecemos. Era uma contrição de seu nome (bricio, bicio, bio) nascida no seio familiar. Era um homem vulgar como o apelido assumido por ele, como suas roupas; vulgar até no modo como falava. Nunca cheguei a considerar Bio um amigo; nunca fomos rivais. Conheço a sentença que diz que um homem acaba por assemelhar-se a seus inimigos (ou algo perto disso), no entanto nunca a considerei verdadeira.
Bio era de boa família; ele não. Estava sempre em nosso meio. Frequentava nossas festas, nossos círculos literários, nossos cafés de final de tarde. Como não poderia deixar de ser, estava na festa de recepção de um cineasta francês que estava na cidade por aqueles dias. A festa era em minha casa (me arrependi de tê-la oferecido; eu nunca gostei de cinema ou cineastas). Bio falou um francês exemplar; citou livros. Lucia se divertia com outras mulheres; não recordo do que falavam. Certo momento, olhou-me e sorriu. Reconheci, com ambição, ternura na combinação de seus dentes a mostra e olhos semi-cerrados.
Bio se aproximou de mim. Sua segurança na fala, nos gestos, no sorrir, produziam em mim uma inveja cega (uma inveja que não queria sentir, mas que não procurava evitar). Era como se em certos momentos eu quisesse assumir a posição de Bio, mesmo ele me dando asco. Falou de Lucia em um tom que me pareceu demasiado elogioso. Perguntou se eu havia percebido como ela desabrochara; falava como se a elogiasse para si mesmo; contou uma história nossa de infância. Eu não consegui seguir sua história; não havia entendido seus elogios a Lucia. Com um ar de quem falara algo sem importância, continuou a conversa indagando se eu conhecia aqueles versos de Blake sobre tigres; respondi que sim. Ele me pediu que os achasse na biblioteca. Entendi aquilo como uma forma de me tirar da sala. Para não ser indelicado, fui. Sabia onde estava o livro, fui direto até ele. Estranhamente, não estava lá. Procurei rapidamente. Não encontrei. Tudo o que não era Lucia, e até a literatura, entediava-me.
Na sala, as pessoas pareciam se divertir. Passei os olhos e não encontrei Lucia. A roda em que estava com outras mulheres já havia se dissipado. Tive ódio; este me fez esquecer de Bio e Blake. Circulei, primeiro com os olhos, para ver se a encontrava. Ela estava na outra sala, a de jantar, perto da janela. Sorria. Aproximei-me e percebi que Lucia conversava com Bio. Pouco antes de eu chegar, tive a impressão de que ele lhe afagava os cabelos; não pude me certificar, pois passaram em minha frente. Quando cheguei, não se calaram.
Falavam de uma notícia banal. Bio me perguntou sobre o livro. Respondi, cordialmente, que não o encontrara. "Outro momento passo para buscá-lo", disse Bio. "Qual livro?", cortou Lucia. Bio lhe explicou a história. "Ah...", respondeu ela, colocando a mão sobre o ombro dele. Ainda falamos coisas que minha mente não consegue recordar quando Lucia anunciou que iria embora. "Eu a levo", disse Bio, dirigindo-se a ela e ignorando a minha presença. "Também vou", completei, com a face em chamas.
3
Eu estava de volta. Logo depois da festa em minha casa, fui obrigado a me retirar da cidade por alguns dias. Fora enviado ao Sul extremo para cobrir um conflito. O que deveria durar apenas uma semana acabou por se prolongar por meses ou anos. Era para ser o contrário, mas a saudade de Lucia me impediu de contabilizar por quanto tempo eu ficara fora. Durante esse tempo, trabalhei sem interesse, relatando as mortes, as decisões políticas, as mazelas do povo como meros anacronismos (a estranheza da terra, guardei para mim). Cada gesto alheio, eu presenciava como um sinal da espera de Lucia. Não via hora de revê-la. Estranhamente, ela não respondia minhas cartas.
Desembarquei e tomei uma condução para casa. Antes de entrar, passei no comércio ao lado de casa para comprar água, pão, café e uma peça de presunto. O tempo ali não parecia ter passado. O dono da venda me reconheceu, mesmo por trás da barba cerrada. Indagou coisas que respondi sem sorrir. Guardara estes para Lucia. Antes de entrar em casa, tive ainda a impressão de tê-la visto na janela, como no dia em que conversara com Bio. O vento frio dissipou o pensamento.
Subi; tomei banho; comi; meus gestos eram mecânicos. Pensei no quanto pensara em Lucia enquanto estivera fora: eram repetições, repetições, repetições... Imaginara por meses aquele momento que vivia, pensando em todas as combinações possíveis de como ele sucederia. Decidi telefonar à casa de Lucia para avisar que estava na cidade. Ela prometeu me visitar, mas só no final da tarde. Tentei ler enquanto esperava; o máximo que consegui foi folhear um volume de Beckett que prenunciava o que estava por vir.
Por sorte, não esperei em vão. Preparei café para nós. Quando Lucia tocou a campanhia, meu corpo se agitou por inteiro; não posso esconder que o que senti pode ser chamado felicidade. Beijou-me antes que eu falasse, mas no rosto (ainda guarda o mesmo respeito de antes, pensei). Perguntou-me como estava e disse que não poderia se prolongar: alguém a esperava lá embaixo. Vi pela janela, a mesma de há tempos, que Bio estava impaciente enquanto segurava uma criança de colo.
Quando ela saiu, um livro estava aberto sobre a mesa de centro; fora Lucia quem o deixara; era o poema de Blake; li-o. Não sem terror, resignação e medo, entendi que o intruso era eu, não Bio. O corpo estranho sempre fora eu. Lucia nunca fora a minha namorada, nunca fizera planos comigo, nunca me esperara durante o tempo que estive fora; todas estas coisas eram dedicadas a Bio. Nossa pouca intimidade, que eu interpretava como respeito, era um sinal que não percebi. Na verdade, o vulgar era eu. Lucia nunca me amara e tinha pena de mim; eu confundira esta pena com afeto. No dia da festa em minha casa, era Bio quem deveria levá-la para casa. Entendi que o mundo produz duplicidades (embora eu não entenda estas terríveis simetrias); que o ser humano é monstruoso como as feras e que viver, para muitos, é um destino atroz.
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publicados na folha:
21 Maio 2009
"A eternidade pode parecer atroz ao espectador; é satisfatória para seus protagonistas. Livres de más notícias e de enfermidades, vivem sempre como se fosse a primeira vez, sem recordar as anteriores. Além disso, com as interrupções impostas pelo regime das marés, a repetição não é implacável.
Acostumado a ver uma vida que se repete, a minha me parece irremediavelmente casual. As promessas de melhoria são fúteis: não tenho uma próxima vez, cada momento é único, distinto, e muitos se perdem em descuidos. É bem verdade que, para as imagens, tampouco existe uma próxima vez (todas são iguais à primeira)."
Adolfo Bioy Casares, A invenção de Morel - pág. 102.
Acostumado a ver uma vida que se repete, a minha me parece irremediavelmente casual. As promessas de melhoria são fúteis: não tenho uma próxima vez, cada momento é único, distinto, e muitos se perdem em descuidos. É bem verdade que, para as imagens, tampouco existe uma próxima vez (todas são iguais à primeira)."
Adolfo Bioy Casares, A invenção de Morel - pág. 102.
15 Maio 2009
Solução
A solução é fogo.
No mais belo texto já escrito por um homem, Borges diz que as chamas das ruínas circulares não queimam as carnes do seres sonhados.
Solução é fogo: fogo do amor, fogo do inferno.
Estamos sós, a bem amada e eu. Comamos. Filés, molhos, pepinos em conserva. Queijos: branco, brie, gorgonzola. Comamos até nossos estômagos não aguentarem mais, até explodirmos para comer mais. É o pecado da gula.
A bem amada. Estamos sós. Ela sai do banho e, só de toalha, espero-a com latas de cerveja, tequila, uísque (duas pedras de gelo e coca-cola); vinho não. Embebedo-a e tomo seu corpo para mim. Sorvo tudo dela. Abandono-a ali mesmo, desfalecida, corpo aberto e nu, sujeita as intempéries do tempo e do mal. É minha forma de protegê-la.
Coloco um disco. No selo central do vinil, o nome "João" grafado em letras garrafais, cerifadas, gira, gira, gira, gira... gira até enroscar. A bem amada gira e se enrosca em meu pescoço. Afasto-a. Pego o violão e toco para ela "Saudades da Bahia".
Estamos sós. A bem amada e eu. Em algum momento indefinido nossos corpos ardem de uma febre sem precedentes. Suemos. Suemos pelos poros, pelos olhos, pelos cílios, até que entremos em delírios antes nunca vistos. É isto que quero de você, bem amada...
Para alegrá-la, mandei instalar o Corpo de Bombeiros ao lado de casa. As sirenes passam por nossa janela tocando uma valsa. Como são altos os prédios, as estrelas desaparecem no cosmo e a bem amada ama tanto as estrelas...! De modo, então, que construí a mais longa avenida para que ela, ao sair na janela, sempre possa ver luzinhas piscando em noites de chuva. O asfalto molhado refelte o vermelho do farol de freio feito os vagalumes de Terra Rica. - Ah, se os tivesse visto, bem amada, você ia adorar...
Para que ela durma protegida da maldade do mundo, dos raios ultravioletas, de balas de pipoca, beijo todas as noites seus olhos; faço vigília a seu lado; seguro seus seios quando ela treme de medo; conto mentiras, dizendo que sou o homem mais forte, o mais belo, o mais valoroso, o melhor poeta, e que somente minhas mãos e meus versos bastam para que nada na vida a atinja. Com um sorriso satisfeito ela acredita e dorme como uma menina grande. Só então posso descansar um pouco, pronto para despertá-la, enlaçando-a com minhas pernas pesadas. Acordo-a aos poucos e ela se ilude, pensando que despertou sozinha.
No mais belo texto já escrito por um homem, Borges fala do fogo das ruínas circulares. De certo modo, sou um pouco ruína e ela é o ser sonhado. A bem amada, pois bem, consome-se do meu fogo, arde de dor e delícia, transforma-se em cinzas: ela, cinza, eu, ruína. Na mágica da ficção, porém, renascemos (e renasçamos!) refeitos todos os dias, numa manhã como esta.
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hoje, na folha,
A solução é fogo.
No mais belo texto já escrito por um homem, Borges diz que as chamas das ruínas circulares não queimam as carnes do seres sonhados.
Solução é fogo: fogo do amor, fogo do inferno.
Estamos sós, a bem amada e eu. Comamos. Filés, molhos, pepinos em conserva. Queijos: branco, brie, gorgonzola. Comamos até nossos estômagos não aguentarem mais, até explodirmos para comer mais. É o pecado da gula.
A bem amada. Estamos sós. Ela sai do banho e, só de toalha, espero-a com latas de cerveja, tequila, uísque (duas pedras de gelo e coca-cola); vinho não. Embebedo-a e tomo seu corpo para mim. Sorvo tudo dela. Abandono-a ali mesmo, desfalecida, corpo aberto e nu, sujeita as intempéries do tempo e do mal. É minha forma de protegê-la.
Coloco um disco. No selo central do vinil, o nome "João" grafado em letras garrafais, cerifadas, gira, gira, gira, gira... gira até enroscar. A bem amada gira e se enrosca em meu pescoço. Afasto-a. Pego o violão e toco para ela "Saudades da Bahia".
Estamos sós. A bem amada e eu. Em algum momento indefinido nossos corpos ardem de uma febre sem precedentes. Suemos. Suemos pelos poros, pelos olhos, pelos cílios, até que entremos em delírios antes nunca vistos. É isto que quero de você, bem amada...
Para alegrá-la, mandei instalar o Corpo de Bombeiros ao lado de casa. As sirenes passam por nossa janela tocando uma valsa. Como são altos os prédios, as estrelas desaparecem no cosmo e a bem amada ama tanto as estrelas...! De modo, então, que construí a mais longa avenida para que ela, ao sair na janela, sempre possa ver luzinhas piscando em noites de chuva. O asfalto molhado refelte o vermelho do farol de freio feito os vagalumes de Terra Rica. - Ah, se os tivesse visto, bem amada, você ia adorar...
Para que ela durma protegida da maldade do mundo, dos raios ultravioletas, de balas de pipoca, beijo todas as noites seus olhos; faço vigília a seu lado; seguro seus seios quando ela treme de medo; conto mentiras, dizendo que sou o homem mais forte, o mais belo, o mais valoroso, o melhor poeta, e que somente minhas mãos e meus versos bastam para que nada na vida a atinja. Com um sorriso satisfeito ela acredita e dorme como uma menina grande. Só então posso descansar um pouco, pronto para despertá-la, enlaçando-a com minhas pernas pesadas. Acordo-a aos poucos e ela se ilude, pensando que despertou sozinha.
No mais belo texto já escrito por um homem, Borges fala do fogo das ruínas circulares. De certo modo, sou um pouco ruína e ela é o ser sonhado. A bem amada, pois bem, consome-se do meu fogo, arde de dor e delícia, transforma-se em cinzas: ela, cinza, eu, ruína. Na mágica da ficção, porém, renascemos (e renasçamos!) refeitos todos os dias, numa manhã como esta.
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hoje, na folha,
12 Maio 2009
Te admiro, mulher, com o pau em riste
Te admiro, mulher, com o pau em riste,
mais alegre do que triste,
como se contemplasse uma orgia
de hipopótamos com ornitorrincos:
uma ode aos ricos fincos.
De segunda-a-segunda
roço-te a bunda
e no domingo choramingo
o leite do teu sexo:
a arte do nexo
que no entanto exclui
as instâncias do complexo.
Lembro-me de ti perguntado se eu lia
e eu dizia
Modéstia a parte eu leio pra cacete,
eu tiro onda, eu sou foda,
mas foda mesmo é o que minha mente fantasia ainda:
no meio, entre a vista linda,
a gente trepando no meio
da mesa redonda e eu no teu meio.
Eu rezo para que te tornes logo
uma Bovary tropical,
que olvides o poeta, a roda, a moda
e que só pense numa grandiosa foda
que nos livre de todo mal,
amém.
Quero que me dê um bocado do teu corpo,
copo onde bebo tua carne,
para encarnarmos logo as figuras dum poema
dum Boca do Inferno ou dum Bocage.
No calor da guerra e da bebida,
conto as ninfas do amor.
Ao total são nove.
Nove dadeiras entre as quais quero uma apenas:
a duro pau e a duras penas.
Te admiro, mulher, com o pau em riste,
mais alegre do que triste,
como se contemplasse uma orgia
de hipopótamos com ornitorrincos:
uma ode aos ricos fincos.
De segunda-a-segunda
roço-te a bunda
e no domingo choramingo
o leite do teu sexo:
a arte do nexo
que no entanto exclui
as instâncias do complexo.
Lembro-me de ti perguntado se eu lia
e eu dizia
Modéstia a parte eu leio pra cacete,
eu tiro onda, eu sou foda,
mas foda mesmo é o que minha mente fantasia ainda:
no meio, entre a vista linda,
a gente trepando no meio
da mesa redonda e eu no teu meio.
Eu rezo para que te tornes logo
uma Bovary tropical,
que olvides o poeta, a roda, a moda
e que só pense numa grandiosa foda
que nos livre de todo mal,
amém.
Quero que me dê um bocado do teu corpo,
copo onde bebo tua carne,
para encarnarmos logo as figuras dum poema
dum Boca do Inferno ou dum Bocage.
No calor da guerra e da bebida,
conto as ninfas do amor.
Ao total são nove.
Nove dadeiras entre as quais quero uma apenas:
a duro pau e a duras penas.
Tempo de cão
O cachorro está cansado. Quando respira, na sua barriga surgem ossos. Tosse, tosse, tosse. Tosse de cão. Não tem tempo, não se lembra de passado; não imagina futuros. Não tem mágoa, trauma; não sofre. Não tem ternura, afeto; não ama. Para o cão só existe o momento.
O cão está encolhido em um canto. O chão está molhado. O cão está encostado em uma parede verde clara. A parede está descascada, velha; tem mofo espalhado por ela. Camadas de tintas de outros tempos surgem por debaixo da tinta verde. O cão não percebe. Está encolhido no canto. A água molha o cão. O cão não se incomoda. O tempo está abafado, úmido; é verão.
Homens suam, fumam, bebem cerveja no quintal. Homens falam, riem, choram na varanda. O cão não entende. O cão está encolhido no canto, debaixo da parede de há tempos. A costela do cão surge quando ele tosse. Quando respira, também ficam evidentes suas doenças na pele. O cão tem sarna; o pêlo ralo, gasto. São micoses, são verrugas, são feridas. O cão as lambe.
O cão não sabe. Com a pata traseira, coça uma região entre a própria pata traseira e a barriga. A coceira passa. O cão fecha novamente os olhos. Está deitado em um canto há muito tempo. Depois ele se levanta e late. Late, late. Come um pedaço de gordura que lhe jogam. Tosse. Late.
O cão volta a se deitar, dessa vez perto de um vaso de samambaia. As folhas tocam sua ferida. Ele bate na folha. Ela se mexe. Volta para o mesmo lugar. O cão não se incomoda. Já está dormindo.
Um dos homens se levanta. Pega uma ripa encostada no pilar. Ela tem um prego na ponta. Os homens riem. Ele espera um tempo e atira a madeira contra o cão. Não acerta o cão, mas o assusta. O cão sente medo, terror. Ele se contrai, levanta-se rápido, as patas flutuam; agita-se; corre dois metros. Ameaça latir, ameaça morder. Tosse. Tosse. Coça a micose. Lambe-se. Esquece.
O cão está cansado. Deita-se. Quando respira, sua barriga vira costela. Tosse, tosse, tosse. Tosse de cão. Não tem tempo, não recorda passados; não ilude futuros. Não tem mágoa, miséria, trauma. Não tem ternura, remorso, afeto. O cão existe.
_______________
na folha,
O cachorro está cansado. Quando respira, na sua barriga surgem ossos. Tosse, tosse, tosse. Tosse de cão. Não tem tempo, não se lembra de passado; não imagina futuros. Não tem mágoa, trauma; não sofre. Não tem ternura, afeto; não ama. Para o cão só existe o momento.
O cão está encolhido em um canto. O chão está molhado. O cão está encostado em uma parede verde clara. A parede está descascada, velha; tem mofo espalhado por ela. Camadas de tintas de outros tempos surgem por debaixo da tinta verde. O cão não percebe. Está encolhido no canto. A água molha o cão. O cão não se incomoda. O tempo está abafado, úmido; é verão.
Homens suam, fumam, bebem cerveja no quintal. Homens falam, riem, choram na varanda. O cão não entende. O cão está encolhido no canto, debaixo da parede de há tempos. A costela do cão surge quando ele tosse. Quando respira, também ficam evidentes suas doenças na pele. O cão tem sarna; o pêlo ralo, gasto. São micoses, são verrugas, são feridas. O cão as lambe.
O cão não sabe. Com a pata traseira, coça uma região entre a própria pata traseira e a barriga. A coceira passa. O cão fecha novamente os olhos. Está deitado em um canto há muito tempo. Depois ele se levanta e late. Late, late. Come um pedaço de gordura que lhe jogam. Tosse. Late.
O cão volta a se deitar, dessa vez perto de um vaso de samambaia. As folhas tocam sua ferida. Ele bate na folha. Ela se mexe. Volta para o mesmo lugar. O cão não se incomoda. Já está dormindo.
Um dos homens se levanta. Pega uma ripa encostada no pilar. Ela tem um prego na ponta. Os homens riem. Ele espera um tempo e atira a madeira contra o cão. Não acerta o cão, mas o assusta. O cão sente medo, terror. Ele se contrai, levanta-se rápido, as patas flutuam; agita-se; corre dois metros. Ameaça latir, ameaça morder. Tosse. Tosse. Coça a micose. Lambe-se. Esquece.
O cão está cansado. Deita-se. Quando respira, sua barriga vira costela. Tosse, tosse, tosse. Tosse de cão. Não tem tempo, não recorda passados; não ilude futuros. Não tem mágoa, miséria, trauma. Não tem ternura, remorso, afeto. O cão existe.
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na folha,
Esquerda festiva
Nasci canhoto. Não sei o motivo. Chuto com a perna esquerda e uso a mão esquerda para tudo. Sempre fui minoria. Os canhotos, nesta Redação, somos apenas dois, em mais de 30 profissionais. A essência de ser canhoto é principalmente escrever com a mão esquerda, não saber fazer o resto dos trabalhos manuais e praticamente esquecer que se tem uma mão direita.
O canhoto é antes de tudo um deslocado. O charme de pertencer à minoria tem seu preço: viver em um mundo que não é feito para você. É ter certos traumas engraçados, como nos melhores filmes de humor negro. "A mão direita é a mão que a gente escreve", diz no primeiro dia de aula a professora magrinha do primário, com sua voz de pássaro.
Quase sempre, na sala de 30, um canhoto solitário levanta a mão esquerda, errando desde já o princípio da vida. "Não, você é diferente; é com a outra mão", diz, sem paciência, a professorinha, abaixando nossa mão esquerda.
Na outra aula, a tesoura. Não há linha reta que assim permaneça se cortada por um canhoto. É preciso virar a tesoura e fazer do ato de cortar uma simples folha de papel o trabalho de um malabarista de um circo pobre de interior, que se apresenta sem graça ou leveza. Eu sempre evitei as tesouras. Assim como evitei (e evito) os abridores da lata. A dificuldade de abrir uma lata com a mão esquerda é enorme.
Até à mesa, nossos braços ficam se chocando com o de qualquer pessoa, já que a maioria leva a comida à boca com a mão direita - do outro lado tem a gente, insistindo em fazer o contrário. Também dizem que mulheres canhotas não conseguem fazer tricô e crochê.
Ser canhoto é ser de esquerda desde o princípio - mas uma esquerda festiva, que ri de si própria por saber que não vai dar certo (e bebe para esquecer). Tenho um orgulho silencioso de ser canhoto. Sei que todo mundo queria ser canhoto. Por fim, defendo as cotas para canhotos: um pagamento pelo trauma de ficar anos tendo de fugir de tesouras, abridores, trabalhos práticos. Quando quiser xingar alguém, chame-o de canhoto.
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na folha,
Nasci canhoto. Não sei o motivo. Chuto com a perna esquerda e uso a mão esquerda para tudo. Sempre fui minoria. Os canhotos, nesta Redação, somos apenas dois, em mais de 30 profissionais. A essência de ser canhoto é principalmente escrever com a mão esquerda, não saber fazer o resto dos trabalhos manuais e praticamente esquecer que se tem uma mão direita.
O canhoto é antes de tudo um deslocado. O charme de pertencer à minoria tem seu preço: viver em um mundo que não é feito para você. É ter certos traumas engraçados, como nos melhores filmes de humor negro. "A mão direita é a mão que a gente escreve", diz no primeiro dia de aula a professora magrinha do primário, com sua voz de pássaro.
Quase sempre, na sala de 30, um canhoto solitário levanta a mão esquerda, errando desde já o princípio da vida. "Não, você é diferente; é com a outra mão", diz, sem paciência, a professorinha, abaixando nossa mão esquerda.
Na outra aula, a tesoura. Não há linha reta que assim permaneça se cortada por um canhoto. É preciso virar a tesoura e fazer do ato de cortar uma simples folha de papel o trabalho de um malabarista de um circo pobre de interior, que se apresenta sem graça ou leveza. Eu sempre evitei as tesouras. Assim como evitei (e evito) os abridores da lata. A dificuldade de abrir uma lata com a mão esquerda é enorme.
Até à mesa, nossos braços ficam se chocando com o de qualquer pessoa, já que a maioria leva a comida à boca com a mão direita - do outro lado tem a gente, insistindo em fazer o contrário. Também dizem que mulheres canhotas não conseguem fazer tricô e crochê.
Ser canhoto é ser de esquerda desde o princípio - mas uma esquerda festiva, que ri de si própria por saber que não vai dar certo (e bebe para esquecer). Tenho um orgulho silencioso de ser canhoto. Sei que todo mundo queria ser canhoto. Por fim, defendo as cotas para canhotos: um pagamento pelo trauma de ficar anos tendo de fugir de tesouras, abridores, trabalhos práticos. Quando quiser xingar alguém, chame-o de canhoto.
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